ATLAS E SÍSIFO E O TRABALHO COMO SUSTENTO DO MUNDO

segunda-feira, maio 08, 2017 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


As coisas que importam mais nunca devem ficar à mercê das que importam menos. - Goethe

O mundo, me parece, tornou-se um lugar de prioridades. Tudo é prioritário e nada é secundário. Tudo importa e tudo deve ser feito, debatido, consumido e resolvido para, em seguida, partir para o próximo desafio da vida. Sendo a vida o próprio desafio, esta acabou ficando para trás, esquecida entre papéis com anotações dos diversos deveres que precisamos cumprir, calendários marcados de reuniões e lugares para ir, despachos e mais despachos de "coisas" que necessitam, sempre com urgência, da nossa atenção.

Esta é a Geração do "Somos o que Fazemos". E não fazer nada é sinal de falta de crescimento, utilidade e função social. Ou assim é o que parece. O conceito do Trabalhador Compulsivo ou Workaholic surgiu logo após a universalização da Internet e o estabelecimento dos negócios online ou à distância. E o Trabalhador Compulsivo tornou-se a estrela do chamado Capitalismo Selvagem, o ícone da prosperidade quase imediata. A chamada Geração Y ou Milleniuns, não teria "todo o tempo do mundo".

Nesta Nova Era para o comércio, o mercado precisava de pessoas ambiciosas a ponto de virarem a noite trabalhando, pularem a hora das refeições e sacrificar seus finais de semana com a família, na promessa de um gordo bônus e salários milionários. Funcionou durante um tempo e acabou. O que ficou mesmo foi a neurose social de precisar ficar demonstrando "serviço" como forma de provar o valor para si mesmo e para os outros. O tempo inteiro.

    
Explicar a necessidade de descanso mental e físico para as pessoas hoje em dia, é como tentar explicar para alguém que fazer dieta e tomar coca-diet com feijoada, não funciona. As respostas variam entre "se você não quer ser alguém na vida, o problema é seu", "Não sou rico e não tenho herança e, além do mais, gosto de trabalhar desse jeito". E a mais comum: "(ao contrário de você) Não tenho medo do trabalho e nem preguiça". 

Em resumo, se você não é um workaholic, é um vagabundo preguiçoso. Pior, essa é a mentalidade das empresas também.

Regras sociais são difíceis de quebrar. E quando estas regras são incorporadas no comportamento pessoal, um pré-conceito pode virar um valor negativo. Um valor negativo acontece quando uma qualidade vira um extremo. É o caso do trabalho em excesso, das dietas radicais, do controle parental nas crianças, das defesas radicais por qualquer direito e por aí vai.

A geração dos pais nascidos no final dos anos 40 até os 60 (Um baby boomer é uma pessoa nascida entre 1946 e 1964), sempre valorizou o trabalho como engrandecedor. O motivo deles (muito justo, inclusive) era a falta de recursos de um mundo pós-guerra e as dificuldades de se arrumar um emprego para sustentar a família.  

A dignidade estava sempre relacionada ao trabalho e sustento da família. Os nascidos nos anos 60 e 70 (Geração X), cresceram ouvindo histórias de sacrifício pessoal de seus pais para fornecer educação, moradia e alimento. E como eles deveriam seguir esta mesma fórmula para o "sucesso".

PARA O ALTO E AVANTE...SÓ QUE NÃO


Cada geração se imagina mais inteligente do que a anterior, e mais esperta do que a que virá depois dela. - George Orwell
Responsabilidade, deveres e uma boa parcela de culpa por não atingir este ideal, marcaram a Geração X para sempre. Replicando a mentalidade de nossos pais, perdemos a nossa própria ideia de como gostaríamos de tocar nossas vidas e o que fazer com o tempo ocioso, "luxo" que nossos pais não tinham. 

A Geração X também já foi chamada de "Geração Perdida" por sua falta de definição entre seguir o mesmo caminho dos pais ou reinventar seu próprio estilo de vida. Acabaram não fazendo nem uma coisa, nem outra.

Mas...e daí?

Existem um senso comum de que as coisas, sejam elas boas ou ruins, acabam se resolvendo sozinhas e a vida segue em frente. O brasileiro, com seu "jeitinho", acredita sempre que pode dar a volta por cima. Isso pode até ser verdade como povo mas, individualmente, a história é diferente.]

Em 2016, os jovens entre 18 e 26 anos bateram o recorde de desemprego no país, marcando a primeira grande crise dessa geração. Na mesma onda, os quase cinquentões da geração X estão sendo mandados embora, realocados ou sem perspectiva de um futuro seguro e rentável.

A casa caiu. E para duas gerações de uma vez. E agora, José?

O NADA COM SENTIDO E PROPÓSITO


Sua tarefa é descobrir o seu trabalho e, então, com todo o coração, dedicar-se a ele. - Buda
Sísifo, é personagem da mitologia grega, condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, sendo que, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido (Wikipédia).

Atlas, também chamado Atlante, na mitologia grega, é um dos titãs condenado por Zeus a sustentar o mundo para sempre. (também Wikipédia). 

Repare que ambos foram condenados a repetir, eternamente, a mesma tarefa sem que houvesse qualquer motivo final para isso. E, sejamos honestos, você só trabalha porque precisa de dinheiro e sustento. Para sustentar o seu mundo (Atlas), você precisa repetir, todos os dias, a mesma coisa (Sísifo). E depois de uns 80 ou 90 anos, você morre e alguém vai continuar o mesmo trabalho por você. Seria este o Sentido da Vida?

Sentido e propósito são palavras que se confundem no senso comum. Na filosofia, Sentido é o que se sente. E o que se sente é o caminho que deve ser seguido para se alcançar o que é preciso. Neste caso, Sentido é direção. E o coração é a bússola.

Por outro lado, propósito é aquilo que se deseja alcançar, é a meta e também algo mais profundo chamado desígnio, palavra originada do Latim DESIGNIUM,  “destaque, marca”, de DE-, “fora”, mais SIGNUM, “marca, sinal”. Ela se refere a “esboço,  projeto, vontade”. E a mente é a bússola.

A distinção é importante para que você entenda as diferenças entre sentido e propósito. Principalmente se estiver desempregado ou "disponível para o mercado", como dizem.

AS PEQUENAS COISAS (QUE IMPORTAM)


Seja fiel nas pequenas coisas porque é nelas que mora a sua força. - Madre Teresa de Calcutá
Primeiro, tenha calma. Seja qual for a sua idade, existe sentido e desígnio para você. Atlas não tinha a escolha de largar o mundo que segurava. Você tem, mesmo que acredite que não. Sísifo não podia deixar de rolar a pedra acima mas você pode deixar rolar abaixo. Sim, você pode. Tudo depende do que você é capaz de deixar para trás para poder seguir em frente (tema para um próximo artigo. aliás).

A fome não é "romântica". A pobreza e o desemprego, também não. Dependemos do Mundo mas não de "um mundo". Você pode descobrir, por exemplo, que um hobby pode se tornar uma profissão. Ou que consegue viver sem algumas regalias com as quais estava acostumado. Você pode encontrar um novo sentido (direção) ao contemplar os recursos que ainda tem. Não existe uma fórmula. Mas se existe um propósito, existe uma saída. Foco nas pequenas coisas, ok?

Sorte, saúde e prosperidade na sua jornada e até a próxima!

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