ENSINA-ME COMO UMA CRIANÇA: REAPRENDER NO COMPLICADO UNIVERSO ADULTO

segunda-feira, maio 02, 2016 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto. - Caio Fernando Abreu

Um amigo, muito inteligente e artista que está lá nos seus 60 e poucos, me disse que não deseja mais ampliar seu universo. Não deseja mais ler tantos livros ou conhecer a banda de sucesso do momento. Não deseja mais ter que fazer a cansativa escolha de descobrir se gosta ou não disso e daquilo. Seu universo é aquilo que coletou durante tantos anos e ele está safisfeito com isso. 

Outra amiga vai se separar. Ela não tem nem 40 anos ainda mas já desistiu de casar de novo. Nunca mais, Deus me livre, essas coisas. Seu universo está em crise e as escolhas já foram feitas no calor do momento. 

Ensina- me como se eu fosse uma criança.

Não lembro onde li ou ouvi esta frase porque já faz algum tempo. Guardo como se fosse um Mantra, um poeminha japonês, um Haikai que me inspira uma certa paz para encontrar a paciência para reaprender e, quem sabe, ensinar alguém. É algo que repito para mim mesmo e me esforço para seguir. Só que nem sempre funciona.

Se você for um "adulto" e realmente honesto sobre a sua condição de "gente grande", vai concordar que adultos são pessoas cansadas, preguiçosas e conservadoras para aprender coisas novas. É uma triste verdade, eu sei, mas é o que é. E você também sabe.

Trabalho, família, contas, cuidar da casa, responsabilidades diversas, mais contas, relacionamentos complicados, busca pela felicidade, amigos, faculdade, crianças, ainda mais contas, chefe chato, desemprego, namoro, separação, namoro de novo, seriados, internet. A ciência diz que nos afastamos muito pouco daquilo que estamos acostumados, nos aventuramos quase nada e nominamos como "novo", apenas algo que já conhecemos e fingimos não saber. Os exemplos acima fazem parte do ciclo de vida da maioria das pessoas. Um ciclo que não permite fazer muitas escolhas audaciosas, ainda mais durante uma crise. Um ciclo que vai minando a sua capacidade de se sentir realmente vivo e criativo na própria vida. Será que temos escolha?


A verdade é como poesia. E a maioria das pessoas odeia poesia pra cacete - ouvido em um bar em Washington
Enquanto adultos, somos cheios de certezas arrogantes que nos pegam pelo rabo, vez ou outra. Mesmo diante de algum fracasso profissional ou sentimental, mantemos nossa postura fixa de um ponto de vista absolutamente correto, onde o comportamento fica entre a vítima dos acontecimentos ou o herói ferido que vai se levantar novamente, um dia, para mostrar que os outros estavam errados. Adultos não erram. Homens não choram, Mulheres correm com Lobos e blá, blá, blá. Se o Ego adolescente se considera imortal, o Ego adulto, só se enxerga como imbatível.

Quando uma criança cai e machuca o joelho, ela reage instintivamente ao choque, chama pela mãe e se expressa com todo sentimento que tem. Ela é honesta. Algo que os adultos não são. Porque somos (id)iotas, muito idiotas.

Na velocidade rápida e passageira das informações que nada informam das Redes Sociais, na morte de um leão por dia para se sustentar e mais alguém, na fuga insana para praia (uma tentativa falha por um breve descanso), no lazer e até no sexo, perdemos algo que só sentimos falta quando brevemente nos lembramos: onde foi parar aquela pessoa que eu queria ser quando crescesse?

Já que estamos sendo honestos, devo te informar que ela se foi. Acho que se perdeu no caminho. Naquele momento em que você decidiu que ser "adulto" é isso. Seja lá o que você entende por "isso". Talvez tenha acontecido durante a escolha da vida profissional: Vou ser advogada ou artista? Publicitário ou médico? Músico ou arquiteto? O que dá mais dinheiro? O que dá mais estabilidade? Talvez porque você realmente não decidiu, decidiram por você.

Ou talvez porque você ainda não sabe e continuou crescendo na dúvida. E, de repente, olhou para o espelho e viu um homem/mulher nos seus 30 e poucos anos que precisa fazer escolhas porque é isso que os adultos fazem. Escolha. Escolha logo. E rápido.


Não é difícil entender que crescemos em uma sociedade que exige e cobra desempenho. Você não vive entre os nômades do deserto da Tunísia ou uma tribo Xavante na Amazônia, onde as regras são outras. Vive em uma cidade grande, dentro de um sistema industrial e de repetição de processos. Porém, a minha e a sua preguiça em reaprender não podem usar isso como desculpa

Aceitar que não existe, de verdade, um Porto Seguro, uma Zona de Conforto que vai se manter pela eternidade é uma das lições mais difíceis para o adulto moderno. Não mudar a forma de pensar, de amar e de sobreviver, é uma involução. É um retrocesso para quem tem mais de 30 e mesmo para quem tem menos do que 100 anos. Precisamos reaprender para aprender. De novo.

Profissionais estão sendo dispensados todos os dias. Alguns, trabalhavam mais de 20 anos na mesma empresa. Outros, mais de 30. Jovens sonhadores, saem ao milhares das faculdades para encontrar um mercado de trabalho falido. Tem advogado vendendo muamba do Paraguai ou da China. Tem arquiteto pintando parede de condomínio. Sentiu a situação?

O momento pede criatividade. E mais que isso, honestidade no que se fala, no que se sente e no que realmente queremos. Se vamos conseguir, isso é outra história. 


Esqueça, por um instante, que você é adulto, ok? Esqueça também os ensinamentos de papai e mamãe que cresceram durante o pós-guerra (1945 em diante) e no inicio do modelo industrial/capitalista do século 20. Respire fundo e faça um esforço de Hércules para esquecer as contas atrasadas. Feche os olhos e faça um simples pedido para si mesmo: 

Ensina- me como se eu fosse uma criança.

Adultos choram. Adultos erram. Adultos podem ser ignorantes, burros, egocêntricos, egoístas, incapazes, gananciosos, petulantes, pomposos e absolutamente medíocres. Se você já é adulto, então sabe disso. Se ainda não se considera adulto, aprenda a reconhecer essa pessoa intragável que habita em você e pode acordar a qualquer momento. Ela precisa ser ensinada como uma criança. Ela precisa ser pacificada. O tempo inteiro, durante toda a vida. 

Crescer é um imperativo biológico. Classificar as fases de crescimento, uma condição pedagógica. Ninguém pode dizer ou prever que tipo de adulto você é ou vai se tornar. Eles também não sabem. Mas não seja ignorante ou arrogante o bastante para não aceitar dicas e conselhos. 


Experimente ter uma boa briga de ponto de vista por semana com você mesmo ou com alguém para sair da Zona de Conforto do adulto-sabe-tudo. Você não sabe tudo o que pensa que sabe. Não discuta, argumente se tiver conteúdo. E se não tiver, aprenda a aprender.

Permita-se ser provocado e sentir-me meio ridículo por acreditar que controla o seu destino porque consegue pagar as contas e citar algumas frases de efeito. Fuja dos livros de autoajuda, das músicas de gosto duvidoso e dos romances açucarados demais. Sempre dá para ficar mais burro ou mais inteligente. A escolha é sua.

Não seja tão condescendente consigo mesmo. Desafie seus gostos, crenças e hábitos. Ter humildade não é ser pobre e ter dinheiro não te faz rico.  Reveja seus valores de tempos em tempos. Reze para seu Deus ou deuses principalmente quando estiver em paz e não somente quando falta a santa paciência com a vida. Relaxe.

Reduza a sua ansiedade sobre o futuro. Segure firme seu leme mas não tente mandar no mar. Busque ler algo que nunca leu, provar uma comida que nunca experimentou, dizer algo inédito e novo para alguém, vestir algo diferente ou fazer tudo isso ao mesmo tempo. Que graça tem em ser único e fazer tudo igual sempre?

E só aceite estes pensamentos, se eles servirem para você porque ninguém tem a solução rápida para o que você considera um problemaço. Eu não tenho.


Pra terminar, meu sobrinho de oito anos veio me mostrar, sorridente, a boca banguela do dente que caiu. Eu lasquei meu dente da frente e fiquei uma semana sem sair de casa. É, adultos podem ser idiotas. Até a próxima!

Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

Milton Nascimento

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