CULTURA DO MEDO E A SOCIEDADE DA TRAGÉDIA ANUNCIADA

terça-feira, maio 22, 2018 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


O medo é o pai da moralidade. - Friedrich Nietzsche

 Lá nos anos 80, lembro da minha avó falando sobre como os comunistas iriam tirar nossas casas e bens, caso certo partido fosse o vencedor das eleições. Lembro também das histórias sobre o "homem do saco" que pegava as crianças que ficavam tarde na rua e a "loira do banheiro" que aparecia, apenas, para as crianças que não obedeciam os seus pais. Pelo que parece, infligir o medo sempre foi uma ferramenta útil para controlar os impulsos de filhos e das pessoas em geral.

É no medo que reside aquela insegurança particular, só sua, que alimentas as incertezas sobre o futuro, a vida e os relacionamentos em geral. É no medo que está aquela sensação de que algo vai ser tirado de você e que nada pode ser feito a respeito. O que talvez você não saiba, é que o medo é um mentiroso.


A grande estratégia do medo é garantir que você não tenha acesso ao que sabe fazer. Ao questionar suas habilidades adquiridas e duvidar do que aprendeu, você vacila. Na biologia, esse vacilo é positivo: o medo é uma ferramenta poderosa para avaliar a segurança do ambiente e possíveis predadores. Mas na vida moderna e urbana das grandes cidades, o perigo não é um grande leão da montanha ou um incêndio na floresta. Na sociedade contemporânea, o medo não vem somente da Natureza. Ele é fabricado diariamente nos meios de comunicação. 

Fica difícil se lembrar qual era a programação de uns 10 anos atrás na tevê aberta. Qualquer sociedade sempre teve que conviver com crimes e violência, doenças e acidentes mas tudo isso era particionado, mostrado em doses breves nos jornais e noticiários. Isso, antes do medo virar um produto. Agora o medo vende, desde de séries sobre Zombies até seguros para carros e casas. O medo é um ótimo negócio e sempre foi. Diferente das opções naturais que o medo proporciona (enfrentar a ameaça ou fugir), escolhemos acreditar no medo e não fazer nada a respeito.


Nos dias atuais, o medo tem sido usado para inflamar questões políticas importantes, confundir os pensamentos e reduzir as respostas. É preciso lembrar que a Cultura do Medo não lida com fatos (fatos fazem parte do pensamento racional) mas com as emoções mais primitivas que possuímos. Medo de perder um ente querido? Faça agora o seguro tal. Medo de não ter dinheiro para pagar as contas? Faça esse empréstimo e viva tranquilo. Medo que tirem tudo que você tem? Entre no nosso partido e nós protegemos você. 

Na Cultura do Medo, o controle do que você pensa é muito importante. Na verdade, a questão é controlar para que você não pense. É apertar aqueles botões certos que podem transformar um simples ato de comprar pão em uma questão social radical, um problema a ser resolvido. Medo é a "Fake News" que vira fato e verdade, dentro de você.

O medo é mentiroso mas muito inteligente. Ele vai pegar o que você mais ama ou admira e sugerir que isso vai ser tirado de você ou destruído para sempre. Nosso ego e orgulho pessoal tendem a lutar pela sobrevivência e sem que você perceba, estará fazendo o que não quer, achando que é exatamente disso que precisa. Afinal, fica difícil pensar quando se assiste 6 horas de violência na tevê, todos os dias. Infelizmente, não basta desligar a televisão. É preciso ligar o cérebro também. E deixar o coitado sair da caixa pra tomar um sol de novas ideias e valores. Só pra variar.


Pensar por si mesmo pode até ser considerado um ato de violência atualmente. E pensar no quê? Na informação que recebemos das redes sociais, das pessoas e dos sistemas de comunicação em geral. O medo nasce sempre da falta de informação, do entendimento superficial sobre qualquer assunto. Confirme as fontes antes de sair compartilhando um novo vírus, pessoa desaparecida, correntes para doação ou "depoimentos"que postaram no seu face. Assistir dois ou três jornais e sites diferentes para ver como a mesma notícia é transmitida pode ser uma boa opção. 

O Brasil tem 13 milhões de analfabetos, sendo que 60% dos analfabetos funcionais estão trabalhando. Um analfabeto funcional é aquele que consegue até fazer contas e trabalho braçal mas não consegue interpretar um texto. Mas pode ter certeza que ele consegue compartilhar tudo que cai na rede social dele. Sem critério ou avaliação. Eles não são o problema. O problema é quem possui inteligência e não usa.


Você não nasceu com um partido, time de futebol ou religião. Isso foi oferecido ou proposto a você e sempre deve passar por uma reavaliação de tempos em tempos. A violência vem da não aceitação e o medo adora uma intolerância. Toda reflexão (ato de pensar antes da ação) precisa de tempo e tempo é algo que todo mundo reclama que não tem. Porém, as pessoas passam horas na fila do show do seu ídolo ou dias em uma passeata, jogando um game no celular ou nos grupos do Zap Zap. É aquele famoso dilema entre o prazer e o dever. E pensar com clareza é um dever obrigatório para entender o mundo em que vivemos. 

Assistir um filme adaptado das obras de Shakespeare não é o mesmo que ler Shakespeare. Para entender qualquer assunto, além da superficialidade rápida das redes sociais, é preciso um pouco mais de esforço e dedicação da nossa parte. É hora de dar corda no cérebro. E rápido!


A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio. - Martin Luther King

Neste momento, vivemos o que os americanos chamam de "tempestade perfeita", uma série de eventos que se somam tragicamente. O inverso do medo não é a coragem, é a estratégia. Ninguém pula no fogo achando que não vai se queimar. Mais do que escutar, precisamos aprender a ouvir e até mesmo a calar os impulsos que transformam o medo em pura violência e a liberdade em libertinagem.

Conquistas como a democracia e o patriotismo, não deveriam ser tratadas como um produto para manipulação de massa ou poder político/religioso/comercial. Não deveriam mas são. E também somos responsáveis por isso.

Em uma sociedade da tragédia anunciada, estamos todos no mesmo barco. Podemos mudar? Podemos evoluir? Podemos transformar o mundo em um lugar de respeito pela opinião do outro e trabalhar a pluralidade sem pular no pescoço de quem discorda da nossa opinião? 

O que você realmente sabe sobre racismo, empoderamento, gestões de gênero, feminismo, política, religião e cultura em geral que vai além do famoso "achismo"? O que realmente sabemos, afinal? 

Não deixe o medo responder estas e outras perguntas realmente importantes por você. Temos eleições pela frente. Será o medo, o grande vencedor que irá reinar? Boa sorte e até a próxima!

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