IMPIZZAMENT E COMO VIRAR GENTE PARA SE TORNAR PESSOA

segunda-feira, abril 18, 2016 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


O Brasil é uma nação de espertos que reunidos, formam uma multidão de idiotas. - Gilberto Dimenstein, escritor e jornalista

Confesso que escrever qualquer coisa sobre política me causa uma náusea imensa por dois motivos: pode sugerir um posicionamento esquerda-direita que não tenho e gerar comentários chatos dos zumbis partidários de plantão. Portanto, este artigo é sobre comportamento social e desenvolvimento pessoal, assuntos bem mais interessantes do que tomar partido disso ou daquilo. E eu não gosto de coisas partidas mesmo, prefiro o que é inteiro.

Quando pequeno, uma frase comum que sempre escutávamos, meio que levando bronca era "vê se vira gente", hábito "pedagógico" que rola até hoje nas famílias brasileiras. Em casa, a frase mais falada pelo meu pai era "anda no mundo porque vê os outros andarem". Nunca soube a origem desse quase insulto (mas aprendi sobre inércia na escola). 

Parece que o brasileiro gosta dessa palavra "gente" e este é um dos motivos do nome desse blog. Na minha lógica de uma criança, acreditava que precisava "virar gente", seja lá o que isso significasse, para me tornar adulto.


Seguindo o meu crescimento, aprendi que "virar gente" era muito difícil. Existem regras, muitas regras, que variam de família para família, região e grau de ensino. As "gentes" em torno de mim eram muito diferentes de mim mesmo (sendo que esse "mim mesmo" era um completo mistério). 

Segundo filho entre quatro irmãos e irmãs, eu não me considerava um semelhante porque gostava de coisas que os outros não gostavam (você sabe como é) e isso era algo bem estranho para os pais dos anos 70 e 80. Afinal, a crença era de que filho é tudo igual, a "gente" cria com o mesmo amor e carinho e tals. Fui crescendo nessa educação plana, social e de massa que acontece na escola até hoje e dentro de muitas casas. A ideia básica é que se é bom para um, deve ser bom para todos. Porque todos são (você vai se cansar dessa palavra, prometo) "gente".

TORNANDO-SE PESSOA


O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem um perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. - Darcy Ribeiro

Quando conseguimos passar pela adolescência, quase sem danos, algo incrível acontece: aquela sementinha chamada EU, que estava germinando e dando alguns raminhos frágeis, floresce. Mas como ocorre na Natureza, ela precisa brigar por seu espaço e o direito de SER para que não seja consumida pelos outros elementos presentes no seu habitat. É uma luta das boas, quem se lembra?

Ainda em formação, tudo é muito confuso e os dados que vem de fora são, primeiro, impressos na forma de sentimentos e não de raciocínio lógico. Primeiro sentimos para depois entendermos e talvez. Nesta fase, a falta de escolarização e modelos que repassem aprendizado são os principais fatores para o pensamento desorganizado, a incapacidade de reflexão e a escolha por "soluções" mais simples e de primeira necessidade. Hormônios em crescimento e outras tantas transformações psicossociais fazem a coisa ficar ainda mais trabalhosa. A luta entre o EU e a GENTE é realmente épica.

"A criança é o pai do Homem", dizia Freud. Junte isso com falta de moradia, saneamento básico, saúde, etc e teremos a tempestade perfeita para manipulação da "gente" e o sufocamento do "Eu" em um indivíduo. Isso é Esparta, meu caro.



O Eu que grita, esperneia e reclama choroso, diga-se de passagem, não é o Eu do Si-Mesmo (Self) mas um genérico criado no laboratório chamado sociedade. É um experimento. E experimentos dão certo ou não. Fortes impressões marcada na infância, podem gerar um presidente, um lunático ou os dois. Entenda como quiser :P

Separar-se do rebanho, ir contra a maré ou qualquer outro clichê que você queira usar para isso, significa ser responsável por aquilo que escolhe ou deixa de escolher. Liberdade, autonomia, democracia e tantos outros "cias" ainda precisam passar pelo juiz mais severo (e meio instável) que mora aí dentro da sua cabeça.

O controle mental exercido por anos e anos de adaptação relativamente pacífica para que você seja um "membro ativo na sociedade" não aceita birras nem choros. Falando nisso, controle só é chamado de controle quando a pessoa entende que está sendo controlada, seja por impulsos inconscientes da infância ou por aquele partido ou organização que promete salvar o mundo e tem uma cadeira reservada pra você.

E não se engane: somos controlados, sempre e de alguma forma. A diferença é saber se é por nossos complexos e medos ou por alguma força externa. Livre-arbítrio? Você ainda acredita nisso? Sabe de nada, inocente... :)


Quando um sistema se desorganiza totalmente, ele entra em Entropia. Desordem tem outro sentido para Física mas usamos esse termo no senso comum para exemplificar, a grosso modo, que a vaca foi mesmo pro brejo e...xiii, ferrou. "No âmbito da administração significa um sistema que já não se adapta ao ambiente empresarial atualizado.", ou seja, já não administra da formas correta, todas as necessidades de um determinado cenário (que pode ser social, empresarial, etc).

Fases como a adolescência e a passagem para a vida adulta e a terceira idade, por exemplo, passam por Entropia:  a pessoa precisa regularizar os processos, reinterpretar o que antes era certo e seguro e planejar novas estratégias para um cenário desconhecido e misterioso. Caiu a ficha ou não?


Em ambos os casos, pessoal e social, a Entropia vai gerar uma Crise de Reconhecimento. Mas eu só posso reconhecer aquilo que já conhecia antes e, neste caso, o quebra-cabeças está montado, ou melhor, desmontado e faltando peças. O raciocínio é frio, as emoções são sempre quentes. A lógica é um arco e flecha que busca o alvo. As emoções, uma metralhadora que atira para acertar o que puder. Não é à toa que partidos políticos, organizações criminosas e células terroristas buscam cativar crianças e jovens primeiro, sacou?

A lógica do cérebro diz que para montar o quebra-cabeças, eu preciso buscar primeiro as peças semelhantes no desenho e partir de uma imagem preconcebida do que já sei. Na "lógica das emoções", o lance é ir tentando encaixar qualquer peça e vamos logo que eu tô com presa. Eu quero mudança, eu quero transformação e eu quero agora (lembrando que esse é o Eu genérico, ok?)   

IMPIZZAMENT

Talvez a pizza seja o maior símbolo da nossa incapacidade de escolha. São tantos sabores, né? Na melhor das hipóteses, acabamos por escolher aquilo que reconhecemos, sem querer passar grandes aventuras ou surpresas. Vai no que conhece que já está garantido. É sempre gostoso mesmo. Afinal, pizza é pizza, né?

Pontos luminosos se acendem em partes especificas do cérebro quando nos reconectamos com lembranças conhecidas e memórias prazerosas. E sempre queremos reviver estas experiências. É um daqueles raros momentos em que a lógica e as emoções se unem, abraçadas e sorridentes enquanto provam aquele pedaço de frango com catupiry quentinho e suculento. Que delícia!

Só que na Entropia isso é um grande problema.

Durante um tempo, eu tentei me tornar "gente" de verdade. Fiz até parte de alguns movimentos por direitos x e a defesa de y e a luta contra z e essas coisas. Lendo e me informado, descobri que para ser "pessoa" eu não precisaria de nada disso com tanta intensidade. Escritores, poetas e artistas de vários segmentos diferentes foram me ensinando o valor do pensamento original e não, necessariamente, partidário. Acreditar em alguma ideologia, seja ela da moda ou não, não era uma questão de grupo mas uma escolha que EU fazia com a minha PESSOA. Eu gosto de música clássica e heavy-metal com a mesma intensidade, por exemplo. Gosto de pizza mas prefiro nhoque. Gosto de gente mas prefiro, muito mais, as pessoas (e, de preferência, uma de cada vez).

A frase que abre este artigo pode ofender algumas "pessoas" mais desinformadas. Então, olha a explicação:

Somente a definição de idiota mereceria um artigo à parte, mas eu acredito que você já entendeu o contexto: a coisa não está para brincadeira e ainda vai levar uns bons dois anos de Entropia para o sistema voltar a ter alguma ordem. Dois anos para começar, olha lá. Eu realmente não participo de passeatas, comícios ou qualquer tipo de manifestação patriótica, etc. É a minha escolha. 

Também não posso dizer o que você precisa ou em que ou quem deve acreditar. Este artigo é para uma reflexão sobre crenças que podem ser limitantes e as manipulações sutis que podem ser feitas para você pensar que acredita no que acredita

Também não me importo se você é um "coxinha" ou um "mortadela". Temos, como pessoas e gente, um grande quebra-cabeças para montar, para que possamos voltar para alguma ordem e coerência. É o mínimo que podemos oferecer para dar sentido ao nosso sentimento de nacionalidade (a palavra patriotismo está tão desgastada pelo ufanismo que prefiro não usar).

Chega de pizzas, coxinhas e mortadelas. Vamos, não atrás, mas na frente, em busca de algo que possamos fazer como pessoas. E vamos fazer pela gente, galera. Até a próxima!


E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora
Fernando Pessoa

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