TODO MUNDO MENTE E A PESSOA QUE VOCÊ NUNCA VAI SER

segunda-feira, novembro 16, 2015 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


A origem da mentira está na imagem idealizada que temos de nós próprios e que desejamos impor aos outros. - Anaïs Nin

Ninguém sabe direito como aconteceu mas, um belo dia, acordamos mentirosos. Pode ter sido em uma manhã comum de domingo, provavelmente lá pelos cinco anos de idade ou até antes.

Na verdade, a mentira já estava programada dentro de todos nós, aguardando com paciência aquele exato momento onde algo dentro de cada um resolveu que seria melhor aumentar a história, florear o assunto ou simplesmente esconder uma informação por motivos que só a pessoa conhece.

"Todo mundo mente", dizia o personagem Dr. House para qualquer um que perguntasse o porquê de tanto cinismo e deboche. E ele tinha razão. Seja como um mecanismo de defesa (contra vergonha, medo ou humilhação, por exemplo) ou por razões egoístas (poder, controle da informação, estratégia política, etc), a mentira virou uma lei da natureza humana, tão comum e necessária quanto o ar que respiramos. Você é um mentiroso nato. Mas não se preocupe porque os outros também são.


Jung (aquele) acreditava que a mentira fazia parte de um ajuste no processo da individuação, um termo que ele mesmo criou para dizer que você pode (em teoria) se tornar tudo que deseja e assim, encontrar a sua essência, o tal do Si-Mesmo (Self). O que atrapalha tudo isso? A mentira e uma outra coisinha chamada Persona.


Entender que todos nós possuímos uma Persona, não é fácil. E descobrir que é ela quem nos possui, pode ser mais difícil ainda. O espelho criado pela Persona é uma cópia exata de tudo o que desejamos ser para os outros e para nós mesmos. Mas continua sendo apenas isso: uma cópia. Encarar a despersonificação dessa imagem pode ser um processo longo e dolorido, que varia de acordo com as necessidades internas de cada um e que não pode ser experimentado sem um certo desconforto.


As mentiras da Persona fazem parte de um acobertamento psicológico para nos livrar da dor e do reconhecimento de alguma ferida interior, alguma experiência que nos machucou no passado e que não queremos repetir no presente. Em uma sociedade voltada, insanamente, para busca da perfeição física, mental e espiritual, a Persona deixa e rola. Nos tornamos um retrato estéril de um modelo de perfeição intocada, de algo que não pode sofrer o mínimo abalo, de estrutura frágil e delicada.

Porém, dentes brancos, corpos de academia e uma gorda conta bancária não podem te esconder do processo de individuação. Ele força seu caminho rumo à evolução pessoal, seja por bem ou por mal. E por mal, essa manifestação pode ocorrer por meio de neuroses, doenças, ataques de pânico e uma boa dose de stress e raiva. Entenda como o seu Jekyl brigando com o seu Hyde, por exemplo.
Perda de relacionamentos, morte em família, falta de grana, desemprego, os fatores existentes para provocar o sacudimento da Persona são inúmeros. Eles mexem com nosso Ego, nossas escolhas e os motivos pelos quais escolhemos. Quanto maiores forem os desafios, maior será a pressão entre o que você é e o que pode se tornar. Que dureza, hein?

Querer é Poder é uma frase da Persona que reclama sua supremacia sobre a nossa existência, controlando nossos pensamentos com rédea curta. É uma tirania ególatra que busca afastar qualquer linha de reflexão. Refletir, para Persona, significa pensar em si mesmo. E pensar em si mesmo pode resultar em uma analise sobre onde falhamos e fracassamos. Ou, em outras palavras, que somos imperfeitos.




É dessa maneira que chegamos no centro de todas as mentiras que foram e ainda serão contadas: o medo. O medo da não-correspondência (ser definido por algo que somos enquanto não somos) é um termo usado para medir o quanto nos afastamos da verdade para evitar a rejeição pessoal e social. Ser aceito, amado ou querido é um componente biológico inato, presente em todas as espécies, que visa a sobrevivência e a reprodução. E todos nós queremos isso em algum nível. Só que...

A Persona esconde o Patinho Feio de cada um, nossas inadequações mais primárias (e que, muitas vezes, só a gente que repara) em troca de uma imagem idealizada do que os outros querem. Pode ser um nariz torto, um ponto de vista diferente sobre uma questão social, alguma fobia ou uma vergonha da infância. Não existe uma solução única para todos mas desfragmentar o disco rígido da Persona de vez em quando pode ser uma boa.


A pessoa que você nunca vai ser é o outro (e me desculpem os jovens apaixonados) porque isso seria uma descaracterização da sua identidade pessoal (o que é muito comum acontecer). A "crise", por assim dizer, é quando a pessoa não consegue mais ser nenhum outro, além dela mesma.

Essa é a oportunidade que se apresenta para desprogramar antigos valores arraigados e partir para busca de si-mesmo e da sua individuação. É um caminho de Arte e Criatividade mas também de Caos (principalmente para as pessoas ao seu redor). 

A recompensa vem por meio de uma verdade singular que confere mais respeito e propriedade ao seu comportamento diante de tudo que acontece com você e com o mundo em que vive (família, sociedade, planeta). É o caminho dos poetas, dos artistas, dos santos, dos empreendedores sociais e dos loucos. Ei, ninguém disse que evoluir e crescer seria fácil, certo?


Neste exato momento, você pode estar experimentando essa mudança de horizonte de maneira caótica ou como uma leve brisa que anuncia as mudanças que precisa fazer. Existe a opção de abraçar o medo do desconhecido (e entrar em pânico) ou respirar fundo antes do mergulho inevitável em uma transformação que pode ou não ter componentes até espirituais. A escolha vai depender da força que a sua Persona exerce sobre você, do que pode abrir mão e deixar ir. 

Seja qual for a sua decisão, lembre-se que a verdade sempre vem bem acompanhada de uma boa sorte. Então, boa sorte e até a próxima! 

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