O CORCUNDA DE NOTRE DAME - O AMOR E A BELEZA SOB O OLHAR DO MONSTRO.

segunda-feira, julho 23, 2012 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


Ler ou reler os clássicos da Literatura confirmam uma teoria discutida por muitos: que o ser humano evolui muito lentamente em direção a compreensão interior das diferenças fundamentais entre as pessoas.. Sob o glacê do lindo bolinho do politicamente correto, camadas e mais camadas de preconceito medieval se misturam ao sabor do chocolate amargo do preconceito enrustido. 
Porém, existe uma grande distância entre o discurso berrante de um apresentador de TV que reclama das mazelas do mundo para aumentar seu índice de audiência, do brilho de um autor especializado na crítica politíco-social como Shakespeare e, neste caso, Victor Hugo.

O francês Victor Hugo (1802-1885) foi (e ainda é) muita coisa:  novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista, etc. Mas sua maior importância se deve ao seu posicionamento como ativista pelos Direitos Humanos porque foi isso que marcou suas obras mais importantes como Os Miseráveis (Les Misérables, 1862) e O Corcunda de Notre Dame (originalmente intitulado Notre Dame de Paris, 1831). 

E não existe nada melhor para discutir Direitos Humanos do que criar um monstro para todo mundo odiar, não é verdade? 


Quasímodo é um personagem tão complexo que sua fama alterou, por um momento, até mesmo o objetivo da obra (fazer o Estado e a população se conscientizar sobre a conservação da Catedral Notre Dame). Puro, ingênuo e deformado, Quasímodo é o mais belo exemplo da "beleza interior" que modelos e artistas propagam hoje como se fosse um comódite. A mesma beleza que ninguém enxerga ao olhar para o corcunda de Notre Dame ou uma criança de rua que pede esmolas. Nos dias de hoje, a forma supera o conteúdo. Ou será que sempre foi assim?

Seu amor juvenil pela cigana Esmeralda (que não é exatamente uma donzela desprotegida, mas uma das primeiras feministas da literatura), a luta para defender sua casa/igreja e seu sacrifico final como bode expiatório do Clero, fazem de Quasímodo um dos personagens mais ricos do gênero romântico clássico. 

O Corcunda de Notre Dame pode ser considerado como uma leitura essencial para os dias atuais por vários motivos. Primeiro: precisamos de monstros de verdade. 

A palavra monstro vem do Latim MONSTRUM, “ser deformado, monstruosidade, sinal, agouro”. É uma derivação do verbo MONERE, “avisar, chamar a atenção para”. 

Vampiros apaixonados, lobisomens adolescentes, zumbis tarados e sei lá o que mais, são pura diversão pop açucarada. Não chamam atenção para nada. O mostro legítimo existe com propósito. Ele é o conflito entre o civilizado e o primitivo, animal e homem, ética e conduta moral. Monstro que se preze, não é saradinho nem politicamente correto, percebe?


Em segundo lugar, ler Victor Hugo é amadurecer o seu senso político-social. Depois do sucesso mundial de O Corcunda de Notre Dame, a cidade de Paris restaurou a Catedral de Notre-Dame porque milhares de turistas estavam viajando para França por causa do sucesso do livro. Outras construções pré-renascentistas também receberam atenção e cuidados. 

Os Miseráveis, ao retratar a miséria e a injustiça social, levantou questões importantes que foram parar na pauta da Assembléia Nacional da França. São exemplos de como a boa literatura transforma e mobiliza. Sem internet e Redes Sociais, vale dizer.

Você pode pensar que me esqueci dos "monstros humanos" que engordam as notícias populares televisivas. Bom, eles são criação e responsabilidade nossa. Assim como é de nossa responsabilidade social, educar as crianças com literatura e ferramentas de qualidade pedagógica que ensinam enquanto divertem. Um bom tema para um outro artigo.

Uma última dica: as melhores versões para o cinema de O Corcunda de Notre Dame são as de Lon Chaney (The Hunchback of Notre Dame, 1923) e Charles Laughton (1939). Leia o livro e veja o filme para responder a pergunta: quem são os verdadeiros monstros afinal?

(The Hunchback of Notre Dame, 1939) com Charles Laughton


Filme da ONG Casa do Zezinho: a monstro da desigualdade social é fruto do próprio descaso humano. Ganhou Leão de Prata em Cannes (2010).

Fontes:
Victor Hugo
Notre Dame de Paris

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