SOFRÊNCIA E O MASOQUISMO DA BUSCA PELO AMOR ROMÂNTICO

segunda-feira, novembro 09, 2015 Marcos H. de Oliveira 0 Comments

Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente. Chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras. Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos.
William Shakespeare

Como já disse, certa vez, o psicólogo e sociólogo alemão Erich Fromm (1900-1980) "o homem é o único animal cuja existência é um problema". Ao tratar a vida como um estado onde "tudo falta", caímos na inevitável armadilha da insatisfação pessoal onde o alvo preferido, é o amor (ou a falta de). O mesmo Erich Fromm já comparou o Amor (com letra maiúscula mesmo) como uma "Arte" que deve ser aprendida antes de se começar:

Se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo por que agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, seja a música, a pintura, a carpintaria, ou a arte da medicina ou da engenharia

A impressão moderna nos diz que faltamos nessa aula. Pior ainda, resolvemos fazer uma "cola" e trazer para modernidade o amor romântico, aquele mesmo do séc. XVIII, com toda a angústia e sofrimento das donzelas presas ao status quo familiar e jovens mancebos nobres e melancólicos que preferem chorar em vez de partir para ação. E dá-lhe noites sem dormir, poemas de gosto duvidoso e frases tão clichês quanto uma letra de música sertaneja ou a nova moda da Sofrência.


Vale dizer que não podemos culpar nenhum gênero musical por fornecer apenas o que o seu público avidamente necessita. O alimento para o amor romântico é a dor e o sofrimento e sempre existiram gêneros musicais para suprir essa necessidade. A Sofrência está bem acompanhada, caminhando de mãozinhas dadas com o Tango, as Óperas italianas, a música Emo e o Brega. Também não faltam exemplos na Literatura, no cinema e na mídia em geral. Para os Romeus e Julietas que estão lendo este artigo, preparem sua garras para o que vem a seguir: sua Sofrência é sinal de grande imaturidade emocional, querido e querida hater.

Mas calma que Carlos Drummond de Andrade pode nos ajudar com sua sabedoria ao colocar que "a educação para o sofrimento evitaria senti-lo com relação a casos que não o merecem. A dor é inevitável, o sofrimento é opcional".

Este seria o mantra ideal se todo o universo à nossa volta (leia mídias sociais em geral) não conspirasse pelo nosso sofrimento. Somos "educados" para sofrer desde o berço. Em algumas religiões, o sofrimento é até mesmo considerado como uma fase necessária e fundamental para o crescimento dito espiritual. Amar só vale se doer, etc.

A ideia de que um sentimento que, para ser real e verdadeiro, precisa passar pelo "sacrifício" do sofrimento faz com que milhares de pessoas se isolem e se retraiam egoisticamente em suas dores, mascarando questões mais importantes como o desenvolvimento pessoal e o altruísmo.


O indivíduo que sofre do amor romântico, sofre também de uma boa dose de egoísmo. Não estamos falando do sofrimento advindo de uma guerra, doença, fome ou morte (no amor romântico, a morte pode ser simbólica ou literal). Uma das principais características do amor romântico é o de servir como um estágio, uma fase para enfrentar as fatalidades da vida e amadurecer com isso. Este estágio deveria nos acompanhar até o fim da adolescência mas o modelo tornou-se tão (comercialmente) popular que perdura até hoje. 

A companhia da multidão é nociva: há sempre alguém que nos ensina a gostar de um vício, ou que, sem que percebamos, transmite-nos esse vício por completo ou em parte. Quanto mais numerosas forem as pessoas com as quais convivemos, maior é o perigo. O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário. - Sêneca
Sofrer na modernidade virou uma comunhão, compartilhada nas Redes Sociais, nas igrejas, nos bares e nos festivais sertanejos (o atual gênero popular divulgador do amor romântico no Brasil). Ao procurar a cura por seus males, as pessoas confundem o veneno da cobra com o antídoto. E por incrível que pareça, sofrer em conjunto trás uma certa paz e serenidade de espírito. Porém, passado o efeito reconfortante, a pessoa volta para sua droga predileta: sofrer novamente.


Infelizmente, o Amor não é ensinado nas escolas como uma Arte que precisa de aprendizado e refinamento. Os Adoradores da Sofrência fogem de qualquer contato com o cérebro e o pensamento racional porque pode demonstrar que a fila andou, que  pisou feio na bola ou que as coisas são assim mesmo. Pensamentos racionais são considerados inimigos mortais de quem sofre e Inteligência Emocional é pra essas pessoas de coração frio. Resiliência? Nunca ouviram falar.

Uma questão final e importante sobre a sofrência: pessoas que sofrem podem ser mais facilmente manipuladas e enganadas pelos próprios sentimentos por motivos quase óbvios. 

Como o sofrimento tem a característica principal de interromper o pensamento racional e derrubar as defesas psicológicas do indivíduo (efeito mais conhecido como tortura), a Sofrência aparece como uma manipulação voluntária, um ato masoquista que busca chamar a atenção para o sofrimento em si e não para cura do mesmo. Que flagelo, hein? 



Não é fácil lidar com o fracasso amoroso, a infelicidade e outros desafios que fazem parte do crescimento humano. Fenômenos culturais como a Sofrência vieram para ficar, mesmo que a moda passe porque o sentimento imaturo permanece.  Ídolos jovens cantam seus sofrimentos amorosos para outros jovens em uma corrente eterna de lágrimas pela necessidade comum de serem amados pelo que são (tornar-se é outro assunto). 

Mas, se você já passou dos 21 ou 28 anos, é preciso tomar um certo cuidado. O lado mais negativo da Sofrência é a rejeição que pode levar à violência contra si mesmo ou contra a fonte do sofrimento. Em resumo, sofrer nunca é divertido. Basta perguntar para quem está sofrendo de verdade. Até a próxima!


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