AS PALAVRAS - DORES E AMORES DE UM ESCRITOR.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013 Marcos H. de Oliveira 2 Comments


"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. (...) Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso." - Fernando Pessoa

Fico sempre contente ao lembrar que o seleto público do AGE é composto por muitos escritores, poetas de primeira e próxima viagem, redatores e literatos. Pessoas que vão entender bem os conflitos do filme que marca, meio que, uma volta do excelente Jeremy Irons ao cinema. As Palavras (The Words, 2012, de e ) é um "filme-livro" quase perfeito para quem gosta de ler e escrever. Olha o trailer:

  

As Palavras apresenta três histórias sobrepostas, misturadas, que se contêm e são contidas por seus personagens reais (para o filme) e fictícios (para os autores que as narram) como naquelas bonequinhas russas. Uma pena que seja um roteiro original porque seria bem interessante conhecer mais aspectos e nuances destes personagens (espaço que apenas um livro poderia comportar). Mesmo assim, graças a uma construção narrativa inteligente, podemos sentir toda angústia do processo criativo pelo qual um escritor escolhe passar. É um calrio para poucos, acredite.

"A verdadeira facilidade de escrever provém da arte e não do acaso." - Alexander Pope
Em um mundo de 140 caracteres (veja o link), palavras sendo trocadas por códigos (kbç, vc, #tal, etc), blogs e velocidade turbo, parece fácil escrever. Uma ideia na cabeça e um computador nas mãos e pronto. Talvez seja por isso que temos tanta literatura e poesia ruim produzida como em nenhuma outra década. "Escrever é estar no extremo de si mesmo", já disse João Cabral de Melo Neto, mas parece que esquecemos disso. Clay Hammond (Dennis Quaid) e seu alter-ego Rory Jansen (Bradley Cooper) não esqueceram. Ainda bem.

"Escrever é um ócio muito trabalhoso." - Goethe
Escritores são egocêntricos, sentimentais, idealistas, mártires, bichos estranhos mesmo. Pleiteam o respeito do mundo pelos seus pensamentos, sua dor e sensibilidade. Existe algo de infantil em um escritor, um componente essencial da imaginação, que o torna birrento em relação ao padrão comum do trabalho formal e um salário mensal. Todo escritor busca entregar a alma aos seus leitores, mas sem compartilhar o corpo e seu espaço sagrado de criação. "Escrever é sempre esconder algo de modo que mais tarde seja descoberto.", já disse Italo Calvino. A descoberta fica para o leitor e nunca será total. 

"Escrever é por em ordem as nossas obsessões." - Jean Grenier
Como toda obra possui suas falhas, As Palavras não é um grande filme como As Horas (2002, que também contêm três histórias e a escritora Virginia Wolf como personagem) ou Mistérios e Paixões (1991, da obra escritor beat William S. Burroughs). 

Falta profundidade ao personagem de Dennis Quaid, suas intenções éticas e escolhas morais apresentadas no enredo. Afinal, ele seria a mente engenhosa e criativa das duas histórias principais. A lindona Olivia Wilde só aparece como um colírio e seus questionamentos parecem ter sido criados para responder perguntas da platéia e não do conjunto narrativo. Parece que a escolha foi por um filme mais curto e acessível, para não virar papo-cabeça. Tudo isso é compensado por Jeremy Irons, bom como sempre, e personagens cativantes (os da Segunda Guerra). E dá até para aprender algo sobre este universo caótico que é escrever.

"Escrever é batermo-nos com tinta para nos fazermos compreender." - Jean Cocteau
 As Palavras vale muito a visita. Se você deseja mais, confira a lista Filmes sobre escritores e a arte de escrever do IMBb e os links abaixo. E já que estamos falando sobre escrita, deixe seu comentário por aqui, ok? Até a próxima.


2 comentários:

Mel Flor disse...

Gostei muito desse post. Concoro quando diz que "temos tanta literatura e poesia ruim produzida como em nenhuma outra década". As pessoas escrevem mais, acham que o que escrevem é bom, mas não é, basta entrar no "Recanto das Letras". Estamos em um tempo em que se escreve mais e se lê menos. Temos "escritores" mas não temos leitores. Eu faço parte dos que escrevem coisas ruins rsrs mas pelo menos não quero transformar minha poesia em livro, escrevo apenas para mim.

Gostei dos filmes que indicou, eu não conhecia, e com certeza vou assisti-los.

Valeu por ter lembrado do valor da leitura como base de uma boa escrita e senso crítico. Continue escrevendo e explorando porque todo gosto é subjetivo ao outro. Abs!