O PAÍS DOS "INOCENTES" E O ERRO TRÁGICO DO HERÓI (HEMARTÍA)

sexta-feira, abril 08, 2016 Marcos H. de Oliveira 0 Comments



Ingenuidade é um modo de se ser inocente. Infantilismo é um modo de se ser idiota. Faz a sua diferença. - Vergílio Ferreira (1916-1996, escritor português)
Estamos gritando desesperadamente para sermos observados, nos sentimos muito solitários. - Leandro Karnal, professor e historiador

Se você está lendo este artigo em 2016, já sabe que o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas estão se digladiando nas salas de cinema em todo mundo enquanto a crise no Brasil se agrava e pede aos brasileiros, nervos de aço para escapar da escuridão e ter coragem para enxergar alguma luz no fim do túnel. Na vida real, não existem super-heróis. Ou será que existem? E o que molda e cria um super-herói? Precisamos realmente de heróis?

Um herói é um semideus (do grego, Heros), alguém que possui certos poderes (adquiridos por dom ou nascimento) ou desenvolve habilidades incomuns aos outros seres humanos. Também é um arquétipo, um modelo de honra e conduta moral inquestionável (na maioria das vezes). Um herói é o cara, não importa o gênero. Seguindo este principio, se você não é um herói, então é o vilão ou pior, a vítima indefesa que olha para os céus na esperança de salvação. É nessa parte que o indivíduo comum dança porque, repito, super-heróis não existem.


A Humanidade sempre curtiu muito esse lance de herói: Pai Herói, Deus Herói, Jesus Herói, Heróis de Guerra e por aí vai. É legal imaginar que tem alguém cuidando por nós, nos protegendo de um perigo desconhecido ou mesmo realizando proezas que sempre desejamos fazer por nós mesmos mas não conseguimos (como nossos heróis brasileiros, Pelé e Neymar ou Ayrton Senna). É reconfortante mas...

Na teoria, o herói inspira o que há de melhor em nós mas também uma certa acomodação de que tem alguém que possa fazer pela gente (como a mamãe, o papai ou o Estado). E o herói é um ótimo bode expiatório para quando as coisas dão errado. Não precisamos culpar apenas o Mal ou o Vilão, o herói ou super-herói também pode levar a dele, afinal, somos apenas os "inocentes" e comuns, não é verdade?

Nos anos 80, uma "nova" modalidade de herói surgiu na mídia (quadrinhos e cinema, principalmente): a do herói falho e mais humano, a do herói que "sente como a gente", que sangra e chora, aproximando ainda mais os aspectos paternais e maternais que todos gostam. Esse modelo foi retirado da Tragédia Grega e o nome disso é Hemartía.


Hemartía é um conceito interessante para entender a nossa atual falta de modelos de conduta para se espelhar ou guiar em tempos mais difíceis. Nos esquecemos que até os heróis podem sofrer da tentação de serem corrompidos pelo abuso de poder. Desde a infância, somos levados pela crença de que não estamos sozinhos, que somos velados por uma entidade superior, ética e benevolente. Estes valores (que poderiam estar em nós) são transferidos para figura heroica, para um "Representante do Bem Maior", afastando-nos da possibilidade de nós mesmos representarmos essas qualidades e sua prática na vida. O herói brilha e ficamos na sua sombra. E, a maioria esquece que todo herói possui uma sombra maior ainda.


O modelo acima (clique para ampliar) não é apenas para semideuses ou divindades, serve para todos nós. Tradicionalmente, o nascimento de um herói surge pelo conflito e o desejo de mudança (que pode ser pessoal ou social). Algo precisa ser transformado na vida da pessoa, na sociedade ou em ambos. O catalisador desse processo pode ser a morte de um parente, de uma figura pública estimada ou algum processo de opressão geral (como uma ditadura) que o coloque no caminho. 

Porém, um herói não nasce pronto. Ele precisa passar por uma série de etapas de amadurecimento, erros e acertos e questionamentos pessoais para que seu espírito heroico seja forjado (leia sobre Joseph Campbell e o Caminho do Herói, aqui no AGE). 

Essas etapas não podem ser transpostas, assim como não podemos pular a fase da adolescência para maturidade. Assim como nós, o futuro herói também precisa aprender sobre responsabilidades, culpa, amor, preconceito e orgulho. E é no orgulho que o bicho pega, sob o nome de Húbris, o orgulho desmedido.


A Húbris anda solta pelo mundo. É o adolescente que acredita ter o controle de uma ferrari na curva, o político corrupto que imagina que nunca vai ser pego, as mulheres e homens bombados e cheios de botox como uma forma bizarra de beleza e por aí vai. Húbris é o orgulho com esteroides, o uso da arrogância como modelo de vida para não ser considerado normal mas diferente do ser humano comum. É na Húbris que começa o Erro Trágico do Herói e de todos nós. É o abismo para onde caminhamos sempre que perdemos a noção do nosso verdadeiro potencial e superestimamos nosso valor.


Com a criação do herói vingativo e rancoroso nos quadrinhos, games e cinemas, aquele que justifica a violência como um mal necessário para justiça, a expressão "Olho por Olho" tornou-se o combustível para Húbris que está presente nas passeatas, nas brigas de trânsito ou por uma vaga no shopping. O mesmo modelo social que você tanto critica quando assiste os noticiários também se encontra dentro de você, diluído, inconsciente e disfarçado talvez, mas também presente, percebe?
  
Acreditamos que somos "inocentes" de responsabilidade pelo mal cometido e dignos da nossa "vingança" contra quem nos feriu ou maltratou, Nos tornamos juízes e carrascos de moral dúbia e questionável. Afinal, será que somos tão inocentes assim?
A Húbris que se disfarça de bondade é a mais difícil de ser reconhecida. Padres, gurus, celebridades, apresentadores da tv, defensores da Natureza e dos Direitos Humanos, ninguém escapa. Isso acontece porque, do outro lado, nós alimentamos e elevamos o comportamento desses "semideuses" virtuais e televisivos para o nosso próprio entretenimento. É uma relação de troca, uma osmose que garante o enaltecimento do ego(centrismo) que a Húbris tanto gosta. 

Descubra o que você defende com tanto afinco (ou até com raiva), pensamentos fixos, partidarismo, amor exagerado, etc e vai encontrar um pouco da sua Húbris lá. É garantido. Mas tem solução.


A Húbris faz parte de uma jornada. É um estágio necessário para se atingir a plenitude e sabedoria do verdadeiro herói. Esse herói não aparece em nenhuma manchete, nas redes sociais, em lugar nenhum. Também não é divino e nem possui superpoderes.

Ele é um herói anônimo, conhecido apenas entre seus amigos e familiares. O objetivo maior desse herói é devolver ao mundo, tudo aquilo que aprendeu de melhor (O Bom, O Belo e O Verdadeiro). O Mal não lhe interessa.

Ele possui a teoria e a ptica e cresceu através das diferenças que conheceu nas pessoas e no mundo. Ele não é mais ingênuo ou sem malícia.
 
Ele é consciente da sua própria natureza dúbia e sabe que pode fazer tanto o Bem quanto o Mal mas fez sua escolha. Seu caráter é maior do que suas tentações mas ele se reconhece como imperfeito e em desenvolvimento permanente.

Esse herói pode ser chamado de Self ou Si-mesmo e não pode ser comprado ou corrompido pelos desejos e prazeres do mundo ou da Húbris. Não existe uma idade certa para encontrá-lo mas quanto mais você procurar, mais ele vai crescer em você. 

Não existem super-heróis. Você existe. Boa sorte na sua jornada e até a próxima.

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