PERISSÉIA - TOM ZÉ E O BRASIL DESCONSTRUÍDO POR MJ OLIVEIRA

segunda-feira, março 21, 2016 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


Inspirada na origem do Brasil, "Perisséia" sugere a grande aventura histórica, social e cultural da nossa “terra brasillis”. É a conhecida Odisséia de Peri e o neologismo que a intitula é também muito justo por lembrar o “Peri”, ninguém menos que o grande herói das matas indígenas e da literatura que imortalizou “O Guarani” de José de Alencar. 

Do álbum Jogos de Armar (2000), gravado por Tom Zé e inspirado em ritmos nacionais e nos povos indígenas, Perisséia é uma composição dos tropicalistas Capinan, Tom Zé e Miguel Wisnik. Como que embalada por cânticos indígenas, a canção é recheada de recursos percussivos e vocais. Era nesse mesmo ano que o Brasil comemorava os 500 anos de colonização e três anos antes, em 1997, o assassinato do índio Galdino por jovens de classe média em Brasília marcava o contexto histórico daquele momento.


Já nas expressões iniciais da canção: “Sabe com quem tá falando? Eu sou amigo do rei...” os autores já revelam o juízo de valor concedido à elite burguesa pelo poderio financeiro, uma herança histórica que permeia até os dias atuais uma cidadania com base no status da elite e da influência política. Reiteram assim, o que Manoel Bandeira retratava em Pasárgada, um dos paraísos imaginários mais conhecidos de nossa literatura: "Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei”). Ser amigo do rei significava desfrutar dos prazeres da corte real, um retrato do próprio Bandeira sobre a burguesia da época. 

Sendo assim, os personagens da trama poética desta canção são os ícones Peri, Zumbi e Galdino, figuras imortais do imaginário étnico e cultural do país. Podemos evidenciar nas passagens: “Que importa o nome que eu tenho/Que importa aquilo que eu sou/Se eu tenho um sonho impossível”, os autores mencionam a luta do líder indígena Galdino, numa clara referência à sua atitude política pela causa indígena. 


Nesta canção, não só Peri é prestigiado pelos poetas Tom Zé e Capinan. Estrelando aqui em Perisséia ninguém menos que o ilustre Macunaíma, o índio que imortalizou a obra literária e modernista de Mario de Andrade ao caracterizar a “rapsódia” do brasileiro e o mártir Tiradentes, líder da Inconfidência mineira. Na passagem Tiradentes, sou eu? /Sou eu um poeta? Sou eu um pião? apesar da referência aos ícones históricos, a letra retrata as identidades construídas a partir da colonização portuguesa na terra selvagem dos tupis-guaranis, imersas na dicotomia que formara durante séculos o povo brasileiro. 

Desta forma, aludem também ao cidadão comum, ao peão da construção que ergue as metrópoles, ao padeiro que acorda cedo para fazer o pão que alimenta os dias dos brasileiros. Essas são figuras imortalizadas no cotidiano, no cidadão das ruas, nos poetas trabalhadores, naqueles que lutam por dias melhores. Ao mesmo tempo lê-se aqui a mensagem sobre o tempo. Eles são os personagens que o atravessam e que fazem girar, assim como os piões, a história de cada dia, a “roda viva” moderna.

Quando entoam o “Iê peri iê /peri iê camará /Iê peri camará/Peri brasil”, ainda explorando a simplicidade regional, esses brilhantes nordestinos fazem uma alusão muito especial ao “camará”, uma expressão genuína e muito cultivada em meados do século passado, e por isso parte do enredo oral da cultura nordestina, entoada em várias canções de poetas da MPB.


Então, resolvem nossos poetas fazer uma montagem de diferentes contextos históricos quando em “Se eu pudesse atrasaria/ Este relógio dois mil/Pra rezar na primeira missa”/pelo destino do Brasil” transpõe a história atual para o passado, para a 1ª missa católica rezada na terra do pau-brasil. E desta forma não se esquecem de prestigiar a poesia e a fantasia humana. Essa poesia que embala os verdadeiros impulsos do homem e dos poetas; os sonhos dos colonizadores, da conquista da terra, os sonhos de liberdade dos povos e etnias submissas, os sonhos dos operários, dos inúmeros Galdinos e “palmares” espalhados por toda extensão territorial de norte a sul do país. 

O que os inúmeros Macunaímas, os sonhadores, heróis e anti-heróis da luta diária, que peregrinam anônimos pelo “gigante-menino”, são o que esses brilhantes poetas baianos exemplificam, em Perisséia. São os brasileiros de todo dia, da luta diária, dos portões do metrô, os que acreditam, elegem e aguardam dias mais justos e merecedores dos impostos pagos com o suor de cada dia. 


Em Ó meu pai, não me abandone/Minha mãe, como é meu nome/Este mundo tem lei?/Este mundo tem rei? Temos outra grande provocação, uma das finais da canção. Fica aqui um retrato da busca pelo eu, pela identidade perdida, o abandono. A canção atenta-se para a desordem, a exploração, o conjunto de leis inertes, que mais punem do que protegem e por aí atravessam anos de constituições. Sem falar das tributações custosas que talvez os mais de 500 anos de trabalho dos milhões de Peris e Zubis do Oiapoque ao Chuí não pudessem pagar com suas aposentadorias e alforrias. 

E é nesse navio sem destino que os poetas nos trazem para os “anos dois mil”, numa clara referência aos tempos de hoje. Imerso num relógio sem ponteiros, esse cidadão ora amigo do rei, ora pião, ora poeta, ora mártir, ora órfão de pai e mãe vai tecendo a trama identitária e cultural da nossa história. 

A família real de outrora são os ministérios de hoje, que urgem por reformas políticas num Palácio e congresso que fedem como d’antes (antes) fediam os trajes europeus no calor dos trópicos dos anos iniciais da colonização. Nada mais oportuno falar de Perisséia hoje, em um momento em que a mídia do ano 2000 denuncia as “cuecas da propina” e o congresso do petróleo, o pau-brasil contemporâneo usurpado nas “vergonhas”, ou nas “cuecas” dos anos 2000. Contemporaneamente, esse navio sem destino não avançou muito pelos mares atlânticos. 

Ele continua a navegar com seus capitães e cidadãos nauseabundos, movidos por uma náusea permanente e reféns das incertezas e descaminhos que a 1ª missa católica não pode evitar. Portanto, que venham os naufrágios dos próximos 500 anos, realizaremos a última missa “laica” no congresso nacional. 

Rapsódia: justaposição, de escassa unidade formal de melodias populares e de temas conhecidos, extraídos com frequência de óperas e operetas. Também pode ser associada a uma peça próxima ao improviso, com fulcro em temas de inspiração folclórica.
 

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