CULTURA DO MEDO E A SOCIEDADE DA TRAGÉDIA ANUNCIADA

domingo, março 20, 2016 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


O medo é o pai da moralidade. - Friedrich Nietzsche

 Lá nos anos 80, lembro da minha avó falando sobre como os comunistas iriam tirar nossas casas e bens, caso certo partido fosse o vencedor das eleições. Lembro também das histórias sobre o "homem do saco" que pegava as crianças que ficavam tarde na rua e a "loira do banheiro" que aparecia, apenas, para as crianças que não obedeciam os seus pais. Pelo que parece, infligir o medo sempre foi uma ferramenta útil para controlar os impulsos de filhos e das pessoas em geral. É no medo que reside aquela insegurança particular, só sua, que alimentas as incertezas sobre o futuro, a vida e os relacionamentos em geral. É no medo que está aquela sensação de que algo vai ser tirado de você e que nada pode ser feito a respeito. O que talvez você não saiba, é que o medo é um mentiroso.


A grande estratégia do medo é garantir que você não tenha acesso ao que sabe fazer. Ao questionar suas habilidades adquiridas e duvidar do que aprendeu, você vacila. Na biologia, esse vacilo é positivo: o medo é uma ferramenta poderosa para avaliar a segurança do ambiente e possíveis predadores. Mas na vida moderna e urbana das grandes cidades, o perigo não é um grande leão da montanha ou um incêndio na floresta. Na sociedade contemporânea, o medo não vem somente da Natureza. Ele é fabricado diariamente nos meios de comunicação. 

Fica difícil se lembrar qual era a programação de uns 10 anos atrás na tevê aberta. Qualquer sociedade sempre teve que conviver com crimes e violência, doenças e acidentes mas tudo isso era particionado, mostrado em doses breves nos jornais e noticiários. Isso, antes do medo virar um produto. Agora o medo vende, desde de séries sobre zombies até seguros para carros e casas. O medo é um ótimo negócio e sempre foi. Diferente das opções naturais que o medo proporciona (enfrentar a ameaça ou fugir), escolhemos acreditar no medo e não fazer nada a respeito.


Nos dias atuais, o medo tem sido usado para inflamar questões políticas importantes, confundir os pensamentos e reduzir as respostas. É preciso lembrar que a Cultura do Medo não lida com fatos (fatos fazem parte do pensamento racional) mas com as emoções mais primitivas que possuímos. Medo de perder um ente querido? Faça agora o seguro tal. Medo de não ter dinheiro para pagar as contas? Faça esse empréstimo e viva tranquilo. Medo que tirem tudo que você tem? Entre no nosso partido e nós protegemos você. 

Na Cultura do Medo, o controle do que você pensa é muito importarte. Na verdade, a questão é controlar para que você não pense. É apertar aqueles botões certos que podem transformar um simples ato de comprar pão em uma questão social radical, um problema a ser resolvido. 

O medo é mentiroso mas muito inteligente. Ele vai pegar o que você mais ama ou admira e sugerir que isso vai ser tirado de você ou destruído para sempre. Nosso ego e orgulho pessoal tendem a lutar pela sobrevivência e sem que você perceba, estará fazendo o que não quer, achando que é exatamente disso que precisa. Afinal, fica difícil pensar quando se assiste 6 horas de violência na tevê, todos os dias. Infelizmente, não basta desligar a televisão. É preciso ligar o cérebro também. E sair o coitado sair da caixa.


Pensar por si mesmo pode até ser considerado um ato de violência atualmente. E pensar no quê? Na informação que recebemos das redes sociais, das pessoas e dos sistemas de comunicação em geral. O medo nasce sempre da falta de informação, do entendimento completo sobre o assunto. Confirme as fontes antes de sair compartilhando um novo vírus ou "depoimento"que postaram no seu face. Assistir dois ou três jornais e sites diferentes para ver como a mesma notícia é transmitida pode ser uma boa opção. 

O Brasil tem 13 milhões de analfabetos, sendo que 60% dos analfabetos funcionais estão trabalhando. Um analfabeto funcional é aquele que consegue até fazer contas e trabalho braçal mas não consegue interpretar um texto. Mas pode ter certeza que ele consegue compartilhar tudo que cai na rede social dele. Sem critério ou avaliação. Eles não são o problema. O problema é quem possui inteligência e não usa.


Você não nasceu com um partido, time de futebol ou religião. Isso foi oferecido ou proposto a você e sempre deve passar por uma reavaliação de tempos em tempos. A violência vem da não-aceitação e o medo adora uma intolerância. Toda reflexão (ato de pensar antes da ação) precisa de tempo e tempo é algo que todo mundo reclama que não tem. Porém, as pessoas passam horas na fila do show do seu ídolo ou dias em uma passeata. É aquele famoso dilema entre o prazer e o dever. E pensar com clareza é um dever obrigatório para entender o mundo em que vivemos. 

Assistir um filme adaptado das obras de Shakespeare não é o mesmo que ler Shakespeare. Para entender qualquer assunto, além da superficialidade rápida das redes sociais, é preciso um pouco mais de esforço e dedicação da nossa parte. É hora de dar corda no cérebro. E rápido!


A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio. - Martin Luther King

Neste momento, vivemos o que os americanos chamam de "tempestade perfeita", uma série de eventos que se somam tragicamente. O inverso do medo não é a coragem, é a estratégia. Ninguém pula no fogo achando que não vai se queimar. Mais do que escutar, precisamos aprender a ouvir e até mesmo a calar os impulsos que transformam o medo em pura violência e a liberdade em libertinagem.

Conquistas como a democracia e o patriotismo, não deveriam ser tratadas como um produto para manipulação de massa ou poder político/religioso/comercial. Não deveriam mas são. E também somos responsáveis por isso.

Em uma sociedade da tragédia anunciada, estamos todos no mesmo barco. Podemos mudar? Podemos evoluir? Podemos transformar o mundo em um lugar de respeito pela opinião do outro e trabalhar a pluralidade sem pular no pescoço de quem discorda da nossa opinião?

Não deixe o medo responder estas e outras perguntas realmente importantes por você. Até a próxima. 

CURTA E COMPARTILHE O AGE NAS SUAS REDES SOCIAIS! 

0 comentários: