O HOMEM MACHO (CADO) E A VIRILIDADE INDEFINIDA

sexta-feira, outubro 23, 2015 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro. - Sigmund Freud
A frase de Freud pode estar correta mas está desatualizada (em parte) nos dias atuais. Muito se fala sobre o universo masculino mas apenas de forma tímida em pequenos artigos aqui e ali como se fosse "proibido" tocar em aspectos mais profundos da masculinidade, indo além de novos modelos de barba ou posição sexual. Poucas mulheres conhecem ou buscam entender a crise do papel masculino na sua totalidade. Revistas "para homem" discutem estilo, moda, status, grana e sexo, perpetuando um estereótipo em troca do arquétipo. Como homens, somos convencidos facilmente a seguir e se enquadrar em um padrão social que contempla desde "homem para casar" até o "cafajeste viril" que, supostamente como uma verdade secreta, as mulheres gostam. Então, como fica?


É embaraçoso dizer que em termos sociais, fica do jeito que esta mesmo. E pior, segundo as pesquisas mais recentes a respeito do comportamento masculino diante de si mesmo. O que acontece é que a base continua a mesma, com os velhos clichês do gênero ("homem não chora", etc, blá, blá, blá), misturado com modas passageiras (metrosexual, man up e mais blá, blá, blá) que fazem com que o homem comum (de educação básica, classe média) permaneça ligado aos seus ensinamentos ancestrais que incluem o homem das cavernas (marca biológica) e o que aprendeu com os homens de família e convivência (pai, avô e amigos, marca social). É uma escola que na maioria das vezes pouco ensina e confunde ainda mais.


A Sindrome de Peter Pan (homens que não querem crescer em responsabilidade e emocionalmente, permanecendo imaturos como crianças), a paternidade que vem cedo depois de uma transa de balada, o conceito arraigado de único provedor da família, os estereótipos do herói viril e infalível. São muitas as causas para depressão masculina mas o fator principal parece ser o próprio homem. 

Crescendo sem o cuidado de analisar a si mesmo (isso é coisa de quem não tem o que fazer, coisa para quem não trabalha duro), o homem atual se veste de moderno e sofisticado para esconder o velho e bom tacape, a machadinha da guerra que trava dentro de si para que suas necessidades emocionais não se manifestem.

Esqueça a dúvida besta se homens choram ou não: eles choram. Sozinhos, trancados em um banheiro público, embriagados em uma festa sertaneja ou abraçados por prostitutas em um quarto de motel barato. E estamos falando de homens adultos porque jovens choram ainda mais na busca por uma virilidade eterna. E dá-lhe violência e machismo para ocultar tamanha insegurança.


Neste cenário, a mulher pouco pode fazer. Elas também carregam seus próprios estereótipos e preconceitos que são alimentados por páginas secretas sobre melhor desempenho sexual e fetiches diversos em revistas moderninhas que vendem um feminismo desatualizado. Elas também nasceram em cima do "modelo Disney" de romantismo e ensinamentos de mães e avós que brigam com 50 Tons de Cinza, virgindade, posição social e a escolha distorcida de ser periguete, santa ou um pouco das duas. E a responsabilidade, na verdade, nunca foi delas. E nem deveria.


Robert Bly, poeta e autor de João de Ferro: Um livro sobre homens, 1990 (que poucos homens conhecem porque ler algo que não seja sobre futebol e carros é coisa de boiola) criou um movimento para o resgate da identidade masculina nos anos 90 onde o centro da fragilidade seria a falta de rituais que permitam que o homem seja homem. Rituais que deveriam ser feitos com os pais e avós para reforçar a união entre a ancestralidade do menino e seu desenvolvimento como adulto. Não rolou como deveria porque os rituais perderam para modernidade, para os games e para muitas outras distrações como a internet e as redes sociais.

A distância atual entre pais e filhos não é apenas uma questão da perda de contato. O tradicional afastamento que os homens fazem com as próprias emoções e a diferença de época contribuem para que não exista um "lugar neutro e seguro" para que se possa conversar abertamente e sem julgamentos. 

Dica: procure o filme independente The Mask You Live In sobre o peso dos padrões de masculinidade oferecidos na cultura pop e seus efeitos na formação dos jovens americanos.


Um outro excelente livro não lido por homens é "Rei, Guerreiro, Mago e Amante: A redescoberta dos arquétipos do masculino" (Editora, Campus-1993) que está esgotado faz anos. Nele, os autores Robert Moore e David Gillette traçam um interessante paralelo sobre a mitologia masculina e os modelos de comportamento do homem moderno. Um contraste interessante é, por exemplo, a troca do termo "amante" que antes simbolizava alguém que ama profundamente algo (como uma área de estudo ou alguma prática esportiva) pela imagem patética de um sujeito pelado escondido no armário ou um predador sexual.

Não existe uma resposta definitiva para qual caminho o homem deve seguir para continuar sendo, afinal de contas, homem. Aconchegado no abraço caloroso da esposa ou namorada (que o trata como um bebê crescido),  envaidecido pelo seu status social, seguro por uma conta bancária gorda, orgulhoso por ostentar um bíceps e barriga tanquinho ou deprimido por estar sem grana, gordo, careca e chegando aos 50, o que cada e todo homem precisa é se educar ou reeducar. Do meu ponto de vista, o caminho é totalmente individual.


Sempre existirão homens no velho estilo macho, homens negativamente sensíveis demais e homens perdidos no encontro com a própria virilidade e sua autoestima. Mas também existirão homens que abraçaram sua paternidade, conseguiram encontrar um ponto de equilíbrio entre o controle e a fragilidade, educaram sua mente e que ainda conseguem reconhecer que existe muito por fazer. 

Talvez o melhor conselho para os homens seja aquele que sempre foi dado para as mulheres: não faça por elas, faça por você. Até a próxima!


A GENTE ENCONTRA INDICA:

A Crise de identidade Masculina 
João de Ferro - Um livro sobre Homens  
O homem à procura de si mesmo - Rollo May
The Representation Project  
What Does It Mean to ‘Be A Man’? (artigo da revista Time)
What Does It Mean To Be a Man? 10 Commandments That Guide My Choices

CURTA E COMPARTILHE O AGE NAS SUAS REDES SOCIAIS!

0 comentários: