SELFIE/BRAGGIE - BEM-VINDO AO SÉCULO DO EGO.

segunda-feira, janeiro 13, 2014 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


"Quando EU me olho no espelho, só sei que não me vejo como os outros me vêem."
 Andy Warhol

Um pouco de cultura inútil para começar o primeiro artigo de 2014: foi o químico e inventor alemão Justus von Liebig (1803-1873) quem descobriu a fórmula para criação de um dos objetos mais usados por toda humanidade (depois do lápis), o espelho (1835, séc. 19). E com ele, o começo da avaliação da própria imagem, identidade social e também do Ego.

"O ego é a instância psíquica identificada por Sigmund Freud, em 1923, correspondente ao princípio da realidade. Além desta camada, a mente conta também com o id, relacionado ao princípio do prazer, e com um censor implacável, o superego. Este centro da consciência ainda inferior, contraposto ao núcleo da consciência superior, o Eu, tem como principal função manter o equilíbrio mental." (InfoEscola)

Vale lembrar que a primeira fotografia conhecida foi atribuída ao francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) no ano de 1826 e que, ironia do destino, não chegou a conhecer o espelho.

Vamos dar um salto rápido de dois séculos para diversas criações como o E-mail (1965!), MySpace (2003), Orkut (2004), Facebook (também em 2004) e dos atuais Instagram (2010) e o controverso Lulu (2013) para montar a Casa de Espelhos que deram origem aos modelos modernos (e tristes) de expressão social da atualidade: o Selfie (que você já conhece) e o Braggie (que você vai conhecer em breve).

o mais antigo "Selfie" conhecido.
Selfie (nominação emprestada do inglês, Self - Eu ou Si-mesmo) são aquelas fotos que quase todo mundo tira na frente do espelho. É uma "evolução" da moda-vexame do duckface (foto fazendo biquinho como um pato, daí a expressão). O duckface reinou nas Redes Sociais a partir de 2006 como uma espécie de sensualização de estilo para celebridades e pobres mortais, mas foi perdendo o bico até 2011. Hoje só é praticado por gente bem sem-noção e na mesa de cirurgia para colocar botox. Quack!


Como princípio, o Ego desconhece as outras partes e se afirma (no indivíduo) como o dono da personalidade e o centro dela. Aquele que diz "Eu sou assim e quem não gosta, que se dane" não fala por si-mesmo (Self), é o Ego quem fala. Fica fácil entender porque personalidade vem da palavra latina persona (máscara). Por trás desta máscara, ficam escondidas todas as neuroses e complexos que o Ego, em suposta perfeição, não pode aceitar.

A escolha natural para o Ego é a exposição, cada vez maior, de sua grandeza. Se um rosto com boca de pato não basta, é preciso mostrar o corpo e suas formas (conquistadas ou não). Sendo assim, o Selfie vestido foi rapidamente desnudado para o mundo. Mostrar o corpo para amigos e totais desconhecidos é o caminho para autoafirmação de que nada está errado do lado de fora e, por uma analogia de fantasia, tudo deve e precisa estar certo do lado de dentro.


Por contexto, não existe Selfie inocente: toda e cada foto compartilhada esconde um desejo mascarado (e, algumas vezes, quase pelado) de aprovação do comportamento humano...por outros humanos. O Ego sofre diversar pressões para se manter "no poder" da personalidade e afastar a consciência (que desnuda, não o corpo, mas os problemas pessoais) e o Si-mesmo verdadeiro (que teria que lidar com as imperfeições pessoais e do mundo). Na atualidade, quanto maior a exposição, maior o disfarce.

E dai? Qual o problema de mostrar suas realizações, a família feliz, o bebê saudável, o corpo sarado, a galera? Na verdade, nenhum. Mas espere, ainda temos que falar do Braggie...

Aki Hoshide: Selfie foi pro espaço.
Braggie (do verbo "brag", gabar-se ou se vangloriar) representa a elevação do Ego ao trono virtual das Redes Sociais. A nova moda é posar de Rei do Camarote em situações e lugares que evidenciem status social e, principalmente, inveja. A inveja é um fator importante para afirmação do poder do Ego. Ela sustenta a ideia de superioridade diante dos outros egos concorrentes e conta para o egocêntrico que aquilo que ele possui, tem valor (mesmo que não tenha).

"Eu me vendo como bem resolvido para fazer os outros se sentirem mal e com isso elevo minha autoestima. Nunca subestime a delícia que é fazer o outro se sentir mal mesmo que você não esteja se sentindo tão bem assim. Eu me vendo como bem resolvido para elevar meu preço no mercado dos afetos e das relações." - Luiz Felipe Pondé



Então...como eu deveria concluir este artigo? Sugerir que você pare de compartilhar suas fotos ou, pelo menos, aquelas que se encaixariam como selfies ou braggies? Clamar para que a sua consciência supere a tentação egóica de se mostrar ao mundo? Sugerir uma terapia para reduzir o excesso de informação compartilhada e fazer com que você compreenda que existem coisas mais interessantes sobre você do que a comida que come (e quando come), o lugar que visita ou quanto perdeu de peso?

Nada disso. 

Em comparação com as outras bases que formam o comportamento humano, o Ego é uma criança e sempre será. O Ego não pode crescer, apenas inflar ou murchar diante da Consciência ou do Self. Ao contrário do que dizem os livros de autoajuda e algumas religiões, ele não pode ser destruído (o resultado seria a perda total da vontade e da diferenciação). Mas ele pode aprender, se você quiser. 

O terrível futuro de uma sociedade com base no Ego e na autopromoção.
O sacrifício do Ego é dar uma espiada no mundo, sem a máscara. Jung diz que "O ego é dotado de um poder, de uma força criativa, conquista tardia da humanidade, a que chamamos vontade." Por outro lado, Caetano canta "Narciso acha feio aquilo que não é espelho" e os gregos definem "Nada em excesso" como a base para evolução da consciência humana. São três conceitos que fazem pensar.

Neste, que esta sendo chamado de "O século do Eu", nenhuma resposta é óbvia ou totalmente satisfatória e no final, cada um precisa contar com alguma sabedoria interna que não venha das Redes Sociais, dos amigos, da família ou de qualquer fonte exterior para que possa fazer seus próprios questionamentos. Se você começou por aqui, hora de seguir em frente.

Além do Ego, existe uma identidade. Boa sorte!


Alain de Botton - A criação do meu eu: o desafio do século 21 

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