ELA - O ENCONTRO COM A SOLIDÃO.

quarta-feira, setembro 23, 2015 Marcos H. de Oliveira 0 Comments

"Trocava toda minha tecnologia por uma tarde com Sócrates."
Steve Jobs 

Pô, quando penso que Paul Thomas Anderson (Magnólia, 1999 e O Mestre, 2012) já tinha exposto o suficiente da natureza humana, aparece Spike Jonze, diretor iniciante na tela grande e sua (já) obra-prima de estreia, Her (2013) com e . Corte rápido para o trailer:

 

Certo. O relacionamento Homem/Máquina não é novidade nem no cinema, nem na literatura e a questão também não é esta. Samantha, a inteligência artificial com a voz de Scarlet Johansson, não é o Hal 9000 de  2001: A Space Odyssey (1968, Stanley Kubrick). Theodore Twombly, o personagem de Phoenix, não é exatamente o nerd adolescente e antissocial em busca de um novo amor que complete sua vida: é um homem na crise dos 40 que precisa assinar os documentos de seu divórcio e ganha a vida escrevendo cartas virtuais de amor para casais sem criatividade (ou tempo, ou vontade, etc). O buraco negro existe, mas não é no espaço exterior.


O diretor Jonze foi editor de revista e documentarista de sucesso. Toda sua narrativa visual expressa essa experiência com planos abertos de cantos vazios e os super-closes em Phoenix. Cada frame de Her é uma foto de Instagram, tons pastéis, cara de saudade em luz difusa (preferência em filmes indie/moderninhos). 

Propositalmente ou não, Theodore me lembrou muito o Leonard Hofstadter da série The Big Bang Theory. Isso pode amenizar a presença quase solo de Phoenix no filme mas não a verdade brutal que a tecnologia trouxe para vida moderna: somos todos narcisos sem espelho em busca de alguém que nos olhe nos olhos (o "espelho" da alma).

The Big Bang Theory: narcisos no espelho virtual
A construção do roteiro de Her revela a necessidade humana (e não apenas masculina) de estabelecermos contatos que sejam realmente de valor e não apenas números em uma fanpage ou em uma das mais de duzentas redes sociais existentes. O afeto inventado pela cortesia do politicamente correto e a fantasia de que não vivemos isolados porque temos Wi-Fi é muito bem representado em uma rápida cena com a linda (e carente) personagem de Olivia Wilde. É triste. É patético até. Mas é bem verdadeira (sem spoliers, assistam).

Redes Sociais: mais "amigos" que amigos.
Phoenix compõe um personagem andrógino, não no sentido sexual (e existe uma paródia ótima sobre isso para você ver no final deste artigo) mas como alguém que busca entender sua trajetória até aquele momento, sem ser julgado por terceiros. Uma voz sem rosto como uma linha de emergência mas que serve como ponto de partida para reconstrução da sua própria unidade (ou harmonização do anima/animus como diriam os psicólogos).

Vale dizer que o filme virou alvo fácil para os que acreditam apenas no estereótipo do "Macho-Alfa" que voltou nesta década, revigorado por séries e filmes sobre gladiadores, piratas e anti-heróis grosseiros. Não se espante, quando ao sair do cinema, ouvir (inclusive, de mulheres) que Theodore "não tem pegada", "tinha que ter mais atitude" e coisas do gênero. Guerreiros e poetas, amigos...


Her não é um filme triste, daqueles que criticam a sociedade tecnológica tentando fazer o espectador engolir o ponto de vista do diretor/escritor. Pelo contrário, é uma proposta de conversa inteligente sobre assuntos do momento como stress, depressão e, por que não, amor. E pouco importa se é candidato ao Oscar. Her pode ser uma tarde com Sócrates. Vai lá conferir.

"Se todos os nossos infortúnios fossem colocados juntos e, posteriormente, repartidos em partes iguais por cada um de nós, ficaríamos muito felizes se pudéssemos ter apenas, de novo, só os nossos." - Sócrates

Ps.: Ahh, Scarlet Johansson...:)

Poster do filme na "versão sincera": "Se o seu telefone soasse como a voz da Scarlet Johansson, você provavelmente tentaria fazer sexo com ele também"



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