FRANKENSTEIN - MARY SHELLEY E O PAI DE TODOS OS MONSTROS.

terça-feira, abril 16, 2013 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


Com tantos monstros por aí, soltos em filmes e séries, livros e cultura pop, a coisa ficou meio cansativa e sem graça. Por isso, resolvi revisitar o "pai de todos os monstros" para resgatar a essência de um dos maiores romances de todos os tempos. Como acontece com todos os clássicos, aconselho a conhecer o autor antes (para saber sobre o momento histórico, tendências literárias da época, etc.). Passa lá na bio de Mary Shelley (1797-1851) e volta aqui, ok?

Mary Shelley (Richard Rothwel, 1840)
Mary Shelley teve uma vida bem trágica e complexa (viu a bio e chorou?), um fator que ajuda a explicar e definir a trajetória do "monstro" criado por Victor Frankenstein e a dinâmica dos personagens envolvidos. É importante ressaltar isso para os novos autores e futuros escritores: escrever não é apenas um ato de pura imaginação, compreende uma boa dose de realidade pessoal e experiência, inclusive das mais sofridas. Tudo faz parte do conjunto que molda a peça literária e mesmo o que definimos por Arte. Fica a dica.


Historicamente, Frankenstein foi escrito com base em uma conversa entre Shelley e um grupo de amigos intelectuais e escritores como o poeta Lord Byron (1788-1824, um dos maiores influenciadores do Romantismo e também do estilo melancólico que alguns consideram gótico), John Polidori (1795- 1821, escritor e médico, autor do primeiro conto moderno de vampiro em 1819) e Claire Clairmont (1798-1879, meia-irmã de Shelley e sua possível amante, grávida de Byron, uma história que já daria outro livro). 

Na parte da "lenda", igualmente aceita, é contado que todos fizeram uma aposta sobre quem inventaria a melhor história de terror para passar o momento. Naquela noite, Shelley teria sonhado com o que viria a se tornar o clássico Frankenstein ou O Moderno Prometeu (1818, ano de publicação). Detalhe e uma curiosidade: Ela tinha apenas 19 anos e o nome Frankenstein é o antigo nome de uma antiga cidade na Silésia, local de origem da família Frankenstein. Mary Shelley teria conhecido um membro desta família, o que possivelmente influenciou sua criação (Wikipédia).

Frankenstein (1831) por Theodor von Holst (1810-1844)
"Foi com certeza um verão molhado,", Mary Shelley relembrou em 1831, "a chuva incessante, muitas vezes confinou-nos dias dentro de casa". Entre outros assuntos, a conversa virou-se para as experiências do filósofo natural e poeta Erasmus Darwin do século XVIII, que disse ter animado matéria morta, e do galvanismo e a viabilidade de retornar à vida um cadáver ou partes de um corpo. Sentados em torno de uma fogueira na Villa de Byron, os companheiros também se divertiam lendo histórias alemãs de fantasmas, fazendo com que Byron sugerisse que cada um escrevesse o seu próprio conto sobrenatural. Pouco depois, em uma inspiração, Mary Godwin concebeu a idéia de Frankenstein (.) Ela começou a escrever o que achou que seria uma história curta. Com o encorajamento de Percy Shelley, ela expandiu este conto em seu primeiro romance (.) Mais tarde ela descreveu o verão na Suíça como o momento "Quando eu saí da infância para a vida" - Wikipédia

Muito pouco da riqueza literária foi usada nos filmes adaptados e isso é até legal porque você vai descobrir que sabe muito pouco sobre Victor e seu monstro, sobre as nuances emocionais que percorrem toda narrativa, as ideias liberais e filosóficas de Shelley. Em outras palavras, sim, Frankenstein é um livro inédito que você nunca leu e deveria ler (principalmente se é um escritor/a iniciante).

Sempre escreveremos histórias sobre monstros, criaturas fantásticas, horror (que é diferente de terror), fantasmas e outros temores humanos. Já escrevi sobre a psicologia do monstro em outros artigos como O Corcunda de Notre Dame e Drácula, por isso não pretendo me repetir aqui.

Frankenstein é uma obra imensamente humana e trágica sobre a perda e a rejeição, temas atemporais que surgem em qualquer momento de preconceito e ignorância. 

Boris Carloff, 1931
Talvez, o maior valor aqui seja o da interpretação do mundo pelo olhar feminino de Shelley/Frankenstein/Criatura como um adolescente do séc. XVIII que já havia passado por três abortos, a perda da mãe e uma madrasta temperamental. Uma narrativa contada por meio de cartas (distanciamento), lugares frios e inóspitos como o Polo Norte (ausência de emoções e solidão social), um cientista que desafia sua sociedade e a religião (Shelley admirava o pai mas divergia de suas ideias políticas), a natureza infantil do "demônio" formado por restos humanos e excluído da sociedade e por aí vai. São tantas referências que não quero estragar nenhum momento especial de leitura.

Boris Carloff, 1931
Alguns detalhes importantes não podem ser esquecidos: "a criatura" era inteligente e racional (oposto dos filmes), sensível e eloquente como sua autora. A pele não era branca ou verde, era amarela (cor associada ao sol, ao brilho da individualidade, mas também a bílis e a doença). Shelley era, por si mesma, uma personagem de sua época: inovadora, trágica e altamente rica em complexos e simbolismos. Até sua morte representou um conto de terror e mistério: 

"Shelley morreu aos cinquenta e três anos, sob a suspeita de um tumor cerebral, em 1851. No aniversário de um ano de sua morte, os Shelleys abriram sua escrivaninha e dentro dela encontraram mechas de cabelos de seus filhos mortos, um caderno que ela compartilhava com Percy Bysshe Shelley, e uma cópia de seu poema Adonais com uma página dobrada em volta de uma pedaço de seda contendo algumas de suas cinzas e os restos do seu coração." - Wikipédia (editado).

Mary Shelley's Frankenhole, animação (2010 -2012)
Com Frankenstein, minha galeria de artigos sobre os "Clássicos de Terror na Literatura" fica completa (não existem livros, digamos, oficiais sobre A Múmia e O Lobisomem). Procure pelos outros artigos aqui no AGE. Como curiosidade final, a frase "It´s Alive"/Está vivo não aparece no livro: foi criada para dar mais dramaticidade a cena do filme.

Frankenstein, Drácula, Lobisomem, A Múmia. Se  você reparar, foram eles quem deram e vão continuar oferecendo toda a inspiração para os próximos 300 anos de imaginação na cabeça de novos autores, escritores e cineastas. Basta continuar lendo. Até a próxima.
 


Ps.: Escrever sobre a Lenda do Golem deixaria o artigo muito longo. Leia aqui. E leia também sobre Literatura Gótica.

Link:  Mary Shelley - Frankenstein - livro completo para ler online

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