AMOR LÍQUIDO - SOBRE A FRAGILIDADE DOS LAÇOS HUMANOS.

terça-feira, fevereiro 12, 2013 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


"Amor líquido é um amor “até segundo aviso”, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação.(...) Na sua forma “líquida”, o amor tenta substituir a qualidade por quantidade — mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo. É bom lembrar que o amor não é um “objeto encontrado”, mas um produto de um longo e muitas vezes difícil esforço e de boa vontade." - Zygmunt Bauman, revista IstoÉ, 24/09/10

Caramba. Escritores esclarecidos como o sociólogo polonês Zygmunt Bauman dificultam a resenha de suas obras. O que pode ser dito quando já está tudo lá, explicado de uma forma tão simples e direta? "Leia o livro", talvez. Porém, se Amor Líquido (que foi lançado em 2003) ainda não faz parte da sua lista de leitura para 2013, espero que este artigo o convença do contrário. Para isso, vou montar um cenário de acontecimentos que marcaram estas mudanças e que, neste exato momento, afetam a forma e o conteúdo das nossas relações interpessoais.


Logo após a virada do século XX, diversos fatores sociais começaram a crescer e influenciar nossa conduta de escolhas na forma de ver, sentir e atuar no mundo. Neste cenário recente, uma nova geração apareceu (chamada de "Y"), a internet ganhou mais velocidade por menor preço (garantindo acesso para muito mais gente), todos os direitos que se possa imaginar começaram a ser defendidos (até mesmo a eutanasia e o canibalismo), as empresas se tornaram "verdes" e "família" (marketing estratégico para dizer que estão ao seu lado), o Capitalismo sofreu uma mutação ideológica (para incorporar estas mudanças sem perder lucro) e quase todo o planeta abraçou uma Nova Ordem que prometia a fórmula (sem culpa) de mais  liberdade, mais espiritualidade, mais consumo, igual felicidade

Ufa! Pausa pra digerir tudo e tentar entender, o que diabos, isso tem a ver com amor e relacionamentos.

"A sociologia é a parte das ciências humanas e estuda o comportamento humano em função do meio e os processos que interligam os indivíduos em associações, grupos e instituições. Enquanto o indivíduo na sua singularidade é estudado pela psicologia, a sociologia tem uma base teórico-metodológica voltada para o estudo dos fenômenos sociais, tentando explicá-los e analisando os seres humanos em suas relações de interdependência. Compreender as diferentes sociedades e culturas é um dos objetivos da sociologia." - Wikipédia 


Lembra daquele personagem do filme Matrix (1999) que traiu todo mundo porque, mesmo sabendo que o bife delicioso e perfeito que comia era uma ilusão mentalmente induzida, preferia viver assim do que ter que engolir uma gogoroba todos os dias? Pois é. Criminalidade, impostos, corrupção, pobreza e desemprego são motivos mais que suficientes para fazer qualquer um querer voltar para barriga da mamãe ou criar uma bolha de ilusão (no melhor estilo Pollyanna) na tentativa de isolar (se) deste mundo cruelmente real, orgânico e sensível que ajudou a criar novos tipos de interação como o sexo virtual, amigos com benefícios e a transa de uma noite só (one-night-stand ou sexo casual).

Estes recentes modelos de intimidade estão dando (sem trocadilho) certo? Você sabe que não e Amor Líquido comprova a falência emocional de se confundir amor com sexo e sexo com relacionamento. De novo.
 

Pausa número dois para reflexão: um estudo recente demonstra que uma em cada três pessoas sente inveja e solidão quando navegam no Facebook (veja aqui). Ao mesmo tempo, uma nova rede social promete acabar com a solidão de pais solteiros (olha) e por aí vai. Fica claro que não estamos mudando as regras do jogo. Estamos apenas acrescentando novas fases que parecem mais fáceis e práticas do que sair da frente do teclado e arriscar a chance de criar laços verdadeiros que podem incluir uma boa dose de incenteza, ansiedade, insegurança e medos diversos. Afinal, não é isso que acontece quando alguém se apaixona de verdade?

A dor do reconhecimento real de que é necessário estar presente de todas as formas (física, mental e emocionalmente) para que uma relação de valor aconteça, está levando muita gente para terapia, a tomar remédios como o Prozac e Viagra, comprar livros de auto-ajuda sexual ou se converter para alguma religião como formas de sufocar vontades e desejos que só podem ser resolvidos (na sua maioria) pela atitude corajosa de sair da matrix (modelo social) que forjamos para o séc. XXI. e não com "relacionamentos de bolso". Bauman não se coloca como tendo todas as respostas, mas seus livros podem ajudar a encontrar a saída.


Quando O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder foi lançado em 1991, as pessoas descobriram que ler sobre Filosofia e seus autores centenários poderia ser uma experiência gratificante e bem legal. Amor Líquido não foi escrito com essa proposta mas se encaixa muito bem como uma introdução à Sociologia. O leitor é automaticamente levado a questionar os diversos papéis que representa na vida em sociedade (real e virtual). É um conhecimento valioso que pode gerar maior consciência e menos reclamação, stress e imaturidade diante do erro e do fracasso de uma relação amorosa, perda de emprego ou plano de carreira, etc. Em outras palavras, Amor Líquido e o estudo da Sociologia em geral, vão te deixar mais "sólido" para enfrentar a imperfeição dos sistemas sociais e dos relacionamentos íntimos. Seu coração agradece. Até a próxima!

 

Outros links legais: 
A separação entre amor e sexo - A fragilidade do tesão com Flavio Gikovate
A Tirania da Felicidade e o Mundo do Trabalho - Luiz Felipe Pondé
Amor Líquido Zygmunt Bauman Por Profa Dra Cláudia Bonfim

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