12 CONTOS - OUTUBRO

terça-feira, novembro 22, 2011 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


Paź olhou para multidão que corria em direções diferentes. Seu ponto de vista era o chão, perto dos bancos da praça. Ela não entendeu bem porque foi parar ali, após o estouro da primeira bomba de "efeito moral" que foi lançada contra os estudantes. Seu cabelo estava melado. Paź tocou a testa e sentiu o sangue coagulado, pouco antes de cair desmaiada. E sonhou.

Em seu sonho, subia numa árvore muito alta. Paź sempre gostou de árvores, desde pequena. Na sua infância simples de criança do interior, a companhia das árvores era o seu melhor brinquedo. Visitava todas que podia, experimentava frutas e, é claro, subia o mais alto possível. Lá em cima, para desespero dos pais e sua total liberdade, Paź olhava um mundo repleto de cores, sabores e ventos que traziam chuvas e cheiros. Até que seus pais precisaram mudar para "a cidade".

Era assim que Paź se referia ao mundo frio e distante deste mostro de concreto que obrigava as pessoas a seguir em linha reta, em filas intermináveis, em curvas arranjadas para cairem em outra linha reta. Paź odiava "a cidade". Logo que chegou, desenvolveu uma asma e medo de sair para rua. Trancou-se em casa e tentou se cobrir de verde: pintou as paredes, encheu a pequena varanda do apartamento de vasos, vivia de frutas que sua avó lhe mandava. Não adiantou.

Deitada na praça, Paź continuava sonhando. E sangrando.

Ela subia os galhos desta estranha árvore com agilidade, até que chegou ao topo. Olhou em volta. Percebeu que sua cabeça estava entrecoberta de nuvens. Era como se ela, de repente, tivesse se tornado um gigante, um ser superior que enxerga tudo do alto. Paź avistou o horizonte e sorriu: todo aquele mundo estava coberto de árvores, iguais àquelas que ela tanto subiu e reproduzia em aquarelas  e capas de cadernos. Tudo era perfeito. E então, sua árvore tremeu.

Deitada na praça, Paź estava sendo socorrida por dois estudantes que a reconheceram da passeata.

No sonho, Paź tremeu junto com a árvore. Talvez mais. Não sabia como tinha chegado até ali, mas não queira voltar. Sua visão do alto mostrava galhos que se abraçavam, folhas coloridas que brilhavam com uma luz própria e frutas, oh Deus, que sabores deveriam ter. Mas "a cidade" não iria deixá-la escapar. Paź chorou e pensou por um momento que era ela a culpada. Ao abandonar estes seres, ela havia se tornado uma estranha e  agora estava sendo expulsa. Pelo menos, foi isso que Paź pensou ao escorregar e começar a cair.

Deitada na praça, Paź estava sendo preparada para receber um choque elétrico de um enfermeiro da faculdade.

Enquanto caía, Paź ouvia o som do vento entre os galhos e uma voz suave que parecia dizer em coro, volte, volte para nós, você é bem-vinda. Por algum motivo, pensou em sua avó, em suas amigas de pega-pega que havia deixado no interior, nos banhos de rio e descanso na sombra. E depois tudo se escureu lentamente e Paź abriu os braços, tentado agarrar o vazio.

Deitada na praça, os olhos de Paź se abriram e ela olhou para os prédios de concreto por uma última vez. Assim que saísse do hospital, voltaria para casa. Sua verdadeira casa. 

***


Notas:

Outubro é o décimo mês do ano no calendário gregoriano, tendo a duração de 31 dias. Outubro deve o seu nome à palavra latina octo (oito), dado que era o oitavo mês do calendário romano, que começava em março. Outubro começa sempre no mesmo dia da semana que o mês de janeiro, exceto quando o ano é bissexto.

Paź são as três primeiras letras da palavra październik (Outubro em polonês).

Agradecimentos especiais para minha amiga Ana Carolina Casarin Alves que emprestou a imagem para ilustrar este conto (e adora desenhas árvores).


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