12 CONTOS - AGOSTO

quarta-feira, setembro 28, 2011 Marcos H. de Oliveira 7 Comments


Guta olhou para o espelho como se este fosse sua melhor amiga. Não era. A imagem que via de si mesma, mais parecia a de uma louca. Os olhos avermelhados ainda guardavam a lembrança das lágrimas derramadas na noite anterior. Parecia que nenhuma escova teria coragem de chegar perto daquele monte de cabelos desgrenhados. E para piorar, estava menstruada. Nenhuma garota deveria ficar menstruada logo após o término de um namoro. Era injusto, muito injusto. 

Seu corpo estava dolorido, não por cansaço, mas por dormir até as quatro da tarde. Faculdade, nem pensar. Era muita gente para o vazio que sentia na barriga. Deu graças a Deus por seus pais trabalharem e poder ficar sozinha em casa. Guta, a filha única, a estudante "nerd" de notas altas, a do sorriso fácil e conversa divertida. Guta, onde foi parar essa garota agora?

Se estivesse a fim de ser sincera, ela pensaria que todos os sinais já existiam e foi ela quem resolveu ignorá-los. Não é o que todo mundo faz quando não quer perder alguém? Menos conversa, mais sexo. Menos momentos sozinhos e a mesa mais cheia de amigos. Conversas monossilábicas pelo telefone e a desculpa de estar cansado, dia duro, essa merda toda. Saco de vida que precisa sempre provar que estamos errados em não ser sinceros com a gente. Saco. Saco. Saco.

Guta não queria escrever no seu blog, não queria mudar seu status no Facebook nem receber mensagens de consolação pelo celular. Tristeza não é assunto pra rede social. Pelo menos, não deveria ser. Folheou algumas revistas femininas e só encontrou dicas idiotas como "dar a volta por cima", "sair pra balada" e todas aquelas coisas que alguém faz quando está perdido. Preferiu alimentar seu gato.

Guta aprenderia, meses mais tarde, que é assim mesmo. Seu amor dolorido virou uma cicatriz do passado e o destino trouxe outro. Ela descobriu como esperar e ficou surpresa por não ter demorado tanto. Passou a prestar mais atenção nas armadilhas que desgastam uma relação e principalmente, passou a prestar mais atenção em si mesma.

Meses mais tarde, Guta sorriu de novo. E também ficou menstruada. Mas isso não tem importância nenhuma pra história.

Notas:
Agosto, do latim Augustus, é o oitavo mês do calendário gregoriano. É assim chamado por decreto em honra do imperador César Augusto. Este não queria ficar atrás de Júlio César, em honra de quem foi batizado o mês de julho, e, portanto, quis que o "seu" mês também tivesse 31 dias. Antes dessa mudança, agosto era denominado Sextilis ou Sextil, visto que era o sexto mês no calendário de Rômulo (calendário romano).
Agradecimento especial para Thani Moraes pela foto que ilustrou este conto. Valeu, Thani!


Não perca os extras deste artigo na fan page
do AGE no Facebook! Curta agora!

7 comentários:

Thany Moraes disse...

Adorei!

Como escreve bem esse Marcos! Haha... Parabéns, cara.

Não me deixe corado, Marcelo, rs. Você,a Thany, os leitores do AGE e do PSVSite fazem parte do meu alimento criativo de todos os dias. Lembre-se que o blog está de braços abertos para receber contos e artigos. Manda ver e boa sorte!

Pedro Pacheco disse...

Bolas agora não tenho tido muito tempo para ler.

Por isso que é bom ter o AGE nos seus Favoritos: você pode ler quando puder. :) Abraços, Pedro!

Sarinha disse...

Seré que toda mulher é menina-mulher? Rsrs... Este conto me lembrou um da Clarice Lispector!! Mto bom ^^

Legal seu comentário, Sarinha. Aguarde o fim do ano para ter todos os 12 contos em pdf para ler e guardar. :)