Escrito para o Cinema - A Estrada - Viggo Mortensen e a descoberta da verdadeira paternidade por Marcos H.

sexta-feira, julho 22, 2011 Marcos H. de Oliveira 0 Comments

Quando existe uma boa história para ser contada, discutir relações familiares no cinema pode ser uma experiência transformadora. Nascemos com certos "títulos" que evoluem durante a vida e que são questionados pela sociedade até a nossa morte. Se você não é de proveta ou chocadeira, então é filho ou filha de alguém. Esse "alguém" é um pai e uma mãe, mesmo se um dos dois não fizer parte da equação. Eles ganharam esse papel por sua causa e você ganhou o seu por causa deles. Em A Estrada (The Road, 2009) você vai descobrir o valor de tudo isso.

Cormac McCarthy é o premiado escritor do livro (ganhador do Pulitzer, em 2006) de onde saiu este drama de ficção-científica bem intimista. Se você não está acostumado a pensar no simbolismo dos filmes que assiste, vou te dar uma dica: todo e qualquer filme de estrada é um simbolismo para trajetória de vida de um personagem que, no fim das contas, também é a sua. É um ritual de passagem, seja de um estado físico, mental ou emocional. 
Neste caso, o pai (Mortensen, magrelo e sem nenhum sex-appeal) e seu filho pré-adolescente (Smit-McPhee) precisam sobreviver em um mundo destruído por alguma besteira que os militares fizeram (sempre eles). Charlize Theron e Robert Duvall fazem papéis pequenos e servem apenas como "acessórios" para narrativa. O importante aqui é mesmo a relação pai e filho.

Filmes de estrada seguem uma fórmula: você está "ferrado", precisa encontrar uma saída e não pode parar. No meio disso tudo, personagens perigosos, curiosos e alguns ajudantes aparecem durante o caminho. É a "Jornada do Herói" descrita por Joseph Campbell (veja aqui) que faz parte da vida de todos nós. Jornada não é uma viagem para curtir ou um passeio de férias. O objetivo da jornada é evoluir ou morrer e isso vai ficar bem claro para você durante o filme.

A Estrada é um filme para repensar seu papel no mundo, seja como pai ou como filho. Muitas das situações, vividas pelos personagens, podem parecer distantes da sua realidade moderna (já que não existe um Apocalipse batendo à porta neste momento) mas, acredite, não são. Pais e filhos enfrentam conflitos de crescimento mutuo tão intensos quanto uma bomba.

Filhos cobram seus pais e vice-versa por diferentes motivos. Penso que filhos costumam "desumanizar" seus pais, esquecendo que eles possuem necessidades pessoais de crescimento. Ao mesmo tempo, pais tendem a ver seus filhos como um "projeto" que precisa ser completado com sucesso para que eles mesmos não fracassem. É uma pressão difícil para os dois lados que, na teoria, se amam.

Na verdade, a grande lição de assistir A Estrada parece ser essa mesmo: colocar o amor pai-filho além das relações de compromisso com o mundo "lá fora" e descobrir o que realmente importa nesta convivência. Assista e me conte o que acha, ok? Até mais.


Cormac McCarthy (autor)


Sobre o Autor:
Marcos H. de Oliveira Marcos H. de Oliveira é redator freelance de publicidade e propaganda e consumidor voraz de livros, música, cinema e arte. http://twitter.com/agentescreve

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