AS AVENTURAS DE PINÓQUIO - O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA NA OBRA DE CARLO COLLODI.

terça-feira, dezembro 10, 2013 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


Ainda vou escrever sobre o "outro lado" de Walt Disney aqui no AGE. Sua contribuição para animação é inegável. Porém, várias gerações (inclusive a minha) passaram a acreditar na "versão açucarada" de Disney para grandes obras literárias e Pinóquio é uma delas. Um grande erro porque você acredita conhecer uma historia que, na verdade, nunca leu.

O Pinóquio (Pinocchio) da obra escrita em 1883 pelo italiano Carlo Collodi é o capeta. Esculpido pelo solitário marceneiro Geppetto a partir de um tronco de pinheiro, Pinóquio "nasce" egoísta, malcriado, encrenqueiro e maldoso. Em outras palavras, ele nasce puro, dependente e necessitado (como um bebê) de carinho e orientação.
 
— Como se chama o seu pai?
— Gepeto.
— Qual é a profissão dele?
— Ser pobre.
— Ganha muito? 
— O necessário para não ter nunca um centavo no bolso.

"Storia di un burattino" (História de um Boneco) era o nome original de As Aventuras de Pinóquio. Não um boneco qualquer, mas uma marionette (do francês, boneco de madeira ou papelão, movimentado por cordões, mas também pessoa frívola, sem personalidade, que se pode manejar à vontade). A marionete é um símbolo da manipulação e da falta de autonomia. E é assim que o personagem se comporta.


A Era Vitoriana (1837-1901) era o tempo da obediência total ao estado, a família e seus princípios morais (entenda-se religiosos). Pinóquio é enganado, roubado, agredido e humilhado porque mente e age como uma criança birrenta. Como muitos adultos, ele deseja apenas receber, sem dar nada em troca. Antes de virar "gente", Pinóquio precisa aprender o que é "ser" humano.

Oh, minha Fada!... Diga-me que é a senhora mesma!... Se a senhora soubesse!... Chorei tanto, sofri tanto!...
— Está lembrado? Você me deixou menina e agora me reencontra mulher.
— Gostei muito, porque assim, em vez de irmã, vou chamá-la de mãe. Faz tanto tempo que sonho em ter uma mãe como todos os outros meninos!... Está na hora de eu também virar homem...
— E vai virar, se souber merecer...
— Verdade? E o que posso fazer para merecer?
— Uma coisa facílima: acostumar-se a ser um menino bem-comportado.
— Quer dizer que não sou?
— Nem de longe! Os meninos bem-comportados são obedientes, enquanto você...
— De hoje em diante quero mudar de vida. Quero me tornar um menino bem-comportado e ser o consolo da vida do meu pai... Onde estará ele a esta hora?
— Não sei.
— Será que terei um dia a sorte de revê-lo e abraçá-lo?
— Acho que sim. Aliás, tenho certeza. Eu serei a sua mãe... Você vai me obedecer e fazer sempre o que eu disser — disse a Fada.
— Com prazer, com prazer!
— A partir de amanhã — acrescentou ela —, você vai para a escola.

Apesar dos papeis sociais terem evoluído (e se misturado), psicologicamente, a mãe sempre será a referência emocional para formação de uma criança, assim como o pai representa a sociedade, o que está lá fora. Porém, como todo herói, Pinóquio precisa passar pela experiência do sacrifício, do abandono e da solidão para reconhecer o valor real daquilo que tem.

Na historia original, Pinóquio mata o grilo-falante logo no primeiro encontro. Pouco importa o fato do grilo ter cem anos de sabedoria acumulada. As famosas "orelhas de burro" representam exatamente a nossa ignorância diante de pessoas ou acontecimentos que surgem para nos educar, mas que um ego inflado não permite. Pinóquio aprende amargamente esta lição através do encontro com seres fantásticos (bichos falantes, muito comuns na literatura da época) que simbolizam este ritual de passagem. Confira a Fábula O Príncipe com Orelhas de Burro para saber mais.
 
Como meu objetivo é que você leia o livro (talvez pela primeira vez), deixo uma última interpretação interessante: a passagem na qual Pinóquio é engolido por um "grande peixe" e a parábola bíblica de Jonas e a Baleia. Compare e veja que legal.


Pinóquio faz parte do grupo de histórias que falam sobre a "Criança Universal" que reside em todos nós. Assim como Alice, Tom, Sawyer, Peter Pan e até mesmo a Emília de Monteiro Lobato. Estes personagens permanecem infantis para que você possa crescer e aprender com eles. Quem for adulto, que leia e entenda. Até a próxima!



Ps.: Perceberam que não falei sobre mentira nem nariz crescendo? Lendo o livro, você vai descobrir que essa é a parte que menos importa para entender a mensagem :)  

Fontes:


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