João Vela contra os Excomungados - Veneno - Cap. 04 de 05 por Marcos H.

sábado, janeiro 15, 2011 Marcos H. de Oliveira 0 Comments

O inferno esta vazio e todos os demônios estao aqui - Willian Shakespeare

O sal começou a se agitar no fundo da panela com água que o Sr. Kedem colocou para ferver. Mayer assoou seu enorme nariz com um lenço vermelho e suspirou. O silêncio parecia tomar a forma de um imenso globo de vidro que continha tudo. Os dois homens se entreolhavam e baixavam os olhos. Não se ouvia mais o choro de uma menina, nem aquela horrível risada abafada de antes. Não se ouvia nada. O que estaria acontecendo lá dentro?

***

A primeira imagem que o homem viu ao entrar no quarto foi a Estrela de Davi, que ainda permanecia no seu lugar, acima da cama. Isso era bom. Significava que ele não podia tocá-la. Cobrindo o rosto com o chapéu, o homem deu um passo em direção à menina.
 
Sentada sobre a cama, Danya estava recostada contra a parede com os cabelos cobrindo seu rosto. Entre suas pernas, uma pequena poça de sangue manchava as vestes brancas. Lembrava uma daquelas bonecas de pano que uma criança joga de canto quando se cansa de brincar. Não havia mais nenhum ferimento aparente, nenhum corte nos braços, pernas ou mãos porque aquilo não era um demônio criado pelos Adoradores do Crucificado. Era anterior a isso. 
 
- Não reconheço seu cheiro, a voz falou de repente, vinda de lugar nenhum.
 
O homem tocou seu chicote escondido por debaixo da camisa e estralou os dedos três vezes. 
 
- É assim que vamos conversar, respondeu. Você na sua escuridão e eu na minha. 
 
Houve um leve movimento na cabeça de Danya. Um pequeno tremor se instalou na mão esquerda antes da voz soltar um leve múrmurio, quase um riso. 
 
- Sabe, é um truque muito bom. Mas eu ainda posso vê-lo um pouco. Eu reconheço suas cores, Coletor.
 
O homem estremeceu por um momento. Esperava manter-se incógnito por mais algum tempo. Retirou um pequeno giz branco do bolso e começou a desenhar algo no chão. 
 
- Isso não vai funcionar, a voz falou. Ela me quer aqui. Ela me chamou. 
 
- Não trapaceie, Djinn. A voz rouca do homem replicou quase como uma ordem. A mão esquerda de Danya saltava na cama. 
 
- Você sabe que não posso mentir. Essa Filha do Barro estava aberta como um belo lago cheio de lágrimas desperdiçadas pela ignorância da perda. Eu sou o que sou e vim beber o que me foi oferecido. Não entrarei pelo portal que você está conjurando. Se insistir, acabo de vez com essa existência inútil e ainda levo o velho comigo! 
 
O homem ouviu tudo em silêncio, terminou de riscar o símbolo no chão e levantou-se. Esmagou o restante do giz branco entre as mãos e as esfregou até os pulsos como um médico que se limpa para uma cirurgia. Foi em direção a cama e tocou o sangue com a ponta dos dedos da mão esquerda. 
 
Subitamente, a cabeça da menina levantou-se e seus olhos se abriram. Um sorriso ensaiado, mecânico e desprovido de qualquer sentimento apareceu no rosto de Danya. A boca se escancarou e a voz gritou pela primeira vez: 
 
- Maldito Coletor! Não sairei! Não sairei!

Pouco antes de passar o sangue entre seus próprios olhos, o homem olhou para dentro da escuridão e respondeu com seriedade: 
 
- Não se incomode, Djinn. Sou eu quem vai entrar.
 
Na cozinha do Sr. Kedem, a panela com água salgada ferveu e transbordou. Nenhum dos dois percebeu o que havia acontecido. Estavam mergulhados em um sono profundo e sem sonhos.

Não perca a quinta e última parte de Veneno - João Vela contra os Excomungados!

Sobre o Autor:
Marcos H. de Oliveira Marcos H. de Oliveira é redator freelance de publicidade e propaganda e consumidor voraz de livros, música, cinema e arte. http://twitter.com/agentescreve

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