CICATRIZES - E SE NÃO EXISTISSEM MARCAS?

sexta-feira, março 21, 2014 Marcos H. de Oliveira 5 Comments


E se com o calor do seu corpo ao meu lado eu acordasse de um sono tranquilo, fuga necessária de um encontro forjado, desculpas de uma saudade que só existe como uma isca encabulada para olhar nos teus olhos?

E se ao te ver dormindo, bicos rosados me encarando, eu fosse atacado por súbita melancolia da perda que foram todos os instantes de covardia pura e machismo herdado que me afastaram do teu sorriso?

E se no seu corpo verdadeiro, sem maquiagem e hidratantes, eu mapeasse cada traço e ruga, cada excesso e perda, cada cuidado e zelo em se fazer bela e perfeita, com suores de academia e revistas da moda, e enxergasse a mulher que me faz feliz?

E se despidos pudéssemos vestir a nós mesmos, longe das performances juvenis dos amantes modernos, das promessas de cortesia e juras decoradas para alcançar juntos, o simples prazer de um café da manhã de conversas fúteis e notícias velhas no jornal de domingo?

E se ao acordar, você não levantasse apressada com olhos no relógio e sapatos, cabeça nas crianças e no marido em viagem e conseguisse arrancar de mim estas palavras que permanecem a espera de um som, cúmplices silenciosas dos erros que marcam a nossa história?

***

O vento que corta meu rosto ao sair do hotel de luxo, cortesia de um emprego seguro, parece zombar da minha estabilidade financeira. Ele penetra minha armadura de Armani, minha imagem de sucesso perfeitamente forjada, meu charuto cubano, meus livros de auto-ajuda. Ele avança, impiedoso e invisível, persistente e irado. Seu desejo é de se unir ao frio em meu coração.

Olho para meu rosto refletido na vitrine da cafeteria. Sinto um certo conforto ao me ver mesclado junto às pessoas que conversam, riem e vivem. Como um fantasma, participo de cada mesa, presente e ausente. Ninguém olha para fora, ninguém quer saber do que está lá fora. Amantes e amigos se divertem em um tempo suspenso de alegria e gozo. São apenas camadas sobrepostas como a minha, mas não importa. Ninguém deseja ali, mais do que tem. Todos se alimentam da mesma cumplicidade. E estão satisfeitos.

Deixo esta visão e caminho pela rua em direção ao metrô. Uma calma amorosa troca de lugar com o vento. O frio some. Feridas são marcas abertas de combate, de guarda baixa, de resistência ao conflito. Não resisto mais, o conflito acabou. Ofereço uma saudação silenciosa ao vento que me abraçou ruidosamente, arrancando lágrimas de meus olhos. Sou preenchido inesperadamente por uma nova consciência. Meu coração se aquece, sangue e açúcar trabalham nas feridas. 

As pessoas buscam lugares sagrados, pontos distantes e isolados para se descobrirem sozinhas. Eu me encontro aqui, no meio da rua, ordinário e comum, simples e maravilhoso. Contemplo por um instante minhas novas cicatrizes. Sorrio para elas. Olho para multidão que me aguarda sem saber. Hora de seguir em frente.

Ps.: A primeira parte deste conto foi escrita para um concurso do (infelizmente) extinto site PSV Crônicas com o tema "E se?". Fiquei incomodado com um final tão triste para o personagem e resolvi dar um fechamento. Espero que gostem e deixem seus comentários. Abraços.

5 comentários:

Participei deste concurso, mas não lembro de ter lido esse seu texto. E cara, muito bom. Seu texto me pareceu um filme, visualizei a cena e viajei pelas comparações e metáforas.

Foram sábias suas escolhas por palavras. Parabéns.

E quer dizer que o PSV site acabou? Não estava sabendo disso...

Abraço, Marcos.
Muitos bons textos pra ti em 2011.

Pois é. Parabéns ao PSV Site pelo tempo e resistência. Agradeço a leitura. Não deixe de compartilhar na sua rede social, ok? Grande abraço!

Júh Costa disse...

TExto maravilhoso, Marcos! Parabéns. Imaginei cada cena que vc detalhou. Ficaria lindo produzir um curta com um roteiro baseado nesse texto.

bjos e sucesso!

Descobri o AGE hoje.
O texto, muito bem escrito, chamou-me a atenção, pois, ao lê-lo, pude visualizar cada passagem. É isso que me atrai: dar vida e viver o que está escrito. Muito bom. Parabéns!

Valeu, Luiza. Se gostou deste conto, experimente a seção 12 CONTOS aqui mesmo no AGE e não se esqueça de compartilhar :)

Sorte e prosperidade! Abraços!