RETROVISOR - O QUE DEIXAMOS PARA TRÁS

quinta-feira, março 26, 2015 Marcos H. de Oliveira 5 Comments


"Quando você nasceu, você chorou e o mundo alegrou. Viva sua vida de forma que quando você morrer, o mundo chore e você se alegre." (Autor desconhecido) 

Andando apressado em minha direção, um famoso ator de novelas conta sua vida no comercial de trinta segundos e deseja que eu siga seu exemplo. Uma universidade avisa que não há tempo a perder, é melhor fazer logo aquele curso que vai me transformar em um líder. O banco sugere que eu abra uma conta especial para fazer parte de um feliz grupo de associados. A versão deste ano daquele carro corre mais rápido, compre. Decida-se. Escolha-me. Beba-me. Engula-me. Eu sei o que é bom para você. 

A cada minuto, alguém me empurra uma mensagem de ação. Dois minutos depois, ainda não sei o que fazer.

Este artigo não é sobre consumismo. É sobre consumir-se. É sobre a idéia de viver tão intensamente que a maioria das pessoas acredita que o dia deveria ter mais de 24 horas. A divisão do dia parece simples: 8 horas de sono para 8 horas de trabalho para 8 horas de lazer. A jornada de trabalho virou para 14, o dormir para 6 (ou menos) e o lazer só no fim de semana se você estiver com sorte. Algo está errado. Que estrada é essa que estamos percorrendo?

"O que você deixa para trás não é o que é gravado em monumentos de pedra, mas o que é tecido nas vidas de outros." (Péricles) 


Talvez você não saiba, mas o conceito da vida veloz vem de longe, lá do pós-guerra (1945-1955). Era um momento de reconstrução total, tanto física (prédios e casas destruídas) quanto psicológica e moral (estruturas de governo e qual caminho seguir). Nações inteiras colocaram a mão na massa, literalmente. Como resultado, toda uma geração nasceu sob um pensamento coletivo inconsciente de urgência e velocidade. Provavelmente seus pais e avós, inclusive. Mas...e você? Vamos devagar para responder isso.


Olha só, para quem nasceu nas décadas de 60 e 70, essa velocidade ganhou o nome de tecnologia. Não a que você conhece hoje mas na forma da Corrida Espacial (1957-1975), a bisavó da visão moderna do progresso que envolvia uma disputa das duas maiores nações até então (EUA e URSS) pelo controle do espaço. E foi a partir deste momento que começamos a pensar que conquistar o espaço exterior era mais importante do que conhecer o nosso próprio espaço interior.


Novamente, isso não pode ser percebido de forma consciente (a não ser que você pense nisso), faz parte de um movimento coletivo e de uma energia de intenção que percorre cada indivíduo interessado em fazer parte do que chamamos de sociedade. Por isso que aquele que não seguem o mesmo ritmo parecem tão deslocados ou marginalizados. É interessante notar que vários movimentos esotéricos como a Nova Era (1960/70) e modelos de ativismo político surgiram neste mesmo tempo.

"Tudo quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia." (Rainer Rilke)

A palavra contemplação é definida, pelo Wikipédia, como uma atividade humana de caráter filosófico ou religioso de meditar, pensar e considerar um objeto externo ou mental, mas que também pode ser uma forma de lazer. Ou seja, você pode se divertir muito sem ter que enfrentar horas de trânsito para chegar em uma praia lotada no feriado ou ter que inventar algo sempre emocionante para afastar a rotina. Você pode meditar. E o melhor, não custa nada. 

Costumo sugerir ao leitores do AGE, novos significados para as palavras como forma de exercitar a criatividade. Neste caso, eu vou ampliar o significado da contemplação para com-o-tempo-a-ação. Praticantes de artes marciais, tai chi chuan e shiatsu sabem muito bem o que isso quer dizer: o resultado positivo depende do uso adequado da pressão e do ritmo no tempo certo.


Me parece difícil entender o sentido de um mundo onde só existam líderes (quem vai seguir quem?) Do que vale a vantagem do aumento da média de vida em 10 anos, se um adolescente de 18 anos ou uma criança de 05 anos desenvolve síndrome do pânico ou é repreendida por não “acompanhar o ritmo”? E o que falar do recente termo "melhor-idade" que mascara o valor de envelhecer (com experiência, conhecimento e, com sorte, sabedoria) pela ideia ilusória de que somos eternos e realidades fisiológicas como a morte não existe? 

Agora, é com você.

A tecnologia é um fato. Inevitável em um mundo que se comporta veloz e furioso em direção a um futuro que existe apenas como conceito e idealização do que desejamos. Estamos no reboot de uma nova mentalidade de ritmo, semelhante aos anos 60, onde as pessoas estão redescobrindo o prazer de parar para um por-do-sol ou brincar de verdade com seus filhos (e não com videogames). Movimento ecológicos também buscam este resgate e por aí vai. Porém, precisamos de muito mais para que o ritmo incosciente de urgência se transforme em segurança para experimentar o que a vida oferece, no tempo em que é oferecido. Soa como uma utopia, né?

Enfim, dizem que se o corpo é o veículo, então o espírito é o motorista. Experimente reduzir a velocidade e abrir as janelas para contemplar a paisagem. Devagar e sempre ou rápido e fugaz, a escolha é sua. Até a próxima.
 
 

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5 comentários:

Inajara disse...

lindo !!em véspera de feriado esse texto da uma vontade imensa de ir pra casa...para qquer casa. vamos desacelerar povo!!

Laurinha disse...

Acho que nunca te falei isso...mas você é talentoso...parabéns.

Magda disse...

Ai, que mensagem linda! Tenho tentado abrir estas janelas para contemplar a paisagem, mas acho que ainda preciso reduzir mais a velocidade para que a "com-o-tempo-a-ação" seja mais produtiva! Obrigada!

Andressa Lima disse...

Realmente um texto mto interessante de ler. Além de escrever bem vc me faz pensar no conceito no qual estamos baseando nossa vida, sem levar em conta as ideologias por trás disso. Interessante mesmo.

Valeu, Andressa! Você vai encontrar outros artigos assim no blog. Boa sorte e prosperidade :)