João Vela contra os Excomungados - Veneno - Cap. 02 de 05 por Marcos H.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011 Marcos H. de Oliveira 0 Comments

E (lembra-te) de quando dissemos aos anjos: Prostrai-vos ante Adão! Prostraram-se todos, menos Iblis, que era um dos Djins, e que se rebelou contra a ordem do seu Senhor. Tomá-los-íeis, pois, juntamente com a sua prole, por protetores, em vez de Mim, apesar de serem vossos inimigos? Que péssima troca a dos iníquos! - Alcorão - versículo 50 da 18ª Surata

Você pode ver na escuridão.

Quer dizer, se você for como ele, você com certeza pode ver a malha trançada por incontáveis fios prateados, extensões nervosas complexas que se estendem infinitamente, duplicando-se em mais e mais fios tubulares de cor difusa. E se tiver a mesma fome, a mesma ânsia por destruir sonhos e corações, por alimentar esperanças para depois despedaçá-las como gelo picado, então você terá paciência para nadar como um peixe negro em mar profundo sem preocupar-se com a passagem do tempo.

E o tempo de espera não será longo porque os Filhos do Barro vivem cheios de sonhos e desejos não realizados, vivem insatisfeitos com a própria existência a ponto de soltarem sua voz melancólica em preces chorosas para deuses reais e imaginários, clamando por resposta e compreensão. Desejos como os de uma criança de 12 anos terrenos que perdeu sua protetora, sua bolsa de leite quente, sua manjedoura de carne em um destino trágico.

E é neste momento, nesta imensa negritude que uma escuridão maior destaca seu brilho de luz negra no interior de um dos fios de prata. Um brilho que só pode ser visto por ele. Sua refeição está sendo servida.

Como é delicioso alimentar-se de sonhos. Feitos de pura energia branca proveniente do espírito, os sonhos guardam todos os segredos mais escondidos dos Filhos do Barro. Um deleite de puro caos onde conquistas não realizadas se misturam a sexualidade insatisfeita e amores não correspondidos. Em uma fêmea perdida na encruzilhada entre a menina e a mulher que ainda não floresceu, estes sonhos ganham cores fortes, vermelho-vinho, azul-turquesa, amarelo-ouro. Em cada cor, uma angústia, um apelo e um desejo que ele sabe muito bem como fisgar e fazer deste, sua ferramenta de adoração.

Nunca se deve possuir um Filho do Barro de uma só vez. É preciso trabalhar pacientemente, assim como uma aranha que entende o princípio de tecer sua teia, calculando o progresso de acordo com sua fome que nunca passa. A beleza é primordial. Sem beleza não existe atração. Já que toda conquista se dá pelo vazio no coração do outro, de um sentimento, de uma posse, a beleza só pode brilhar mais por sua ausência do que pela presença. Torne alguém miserável, tire o que lhe é mais precioso durante algum tempo e substitua, gradativamente e sutilmente com a sua presença e, em pouco tempo, terá um escravo.

Nesta criança, ele já vem trabalhando há quase três dias. Viajando com o vento, veio parar nesta pequena cidade triste, de pessoas velhas e cansadas de seus afazeres rotineiros e sem sentido. Pessoas que movimentam a Grande Roda sem perspectiva alguma, que não buscam crescimento algum e que se conformam apenas em consumir e despejar seus dejetos dia após dia. Um delicioso cenário de inércia onde o espírito de uma menina solitária é como um farol brilhante que ilumina o mar noturno, praticamente convidando um predador como ele para o banquete.

Ela não irá morrer. Morrer seria um desperdício, um erro de calculo como aquele causado por seres inferiores que os Filhos do Barro chamam de demônios. Ele não é um demônio. Qual seria o prazer de infligir tanta dor à carne para depois jogá-la, podre e destorcida, em um buraco na terra? Isso é trabalho de açougueiros não de um gourmet.

O que ocorre é simples: uma pequena febre, uma virose no primeiro dia para que ele possa entrar. Logo depois, um estado tranqüilo de sonolência, alguns sonhos de prazer e bem-estar (que são como a última refeição servida a um condenado) para que o espírito se distraia e não perceba as serpentes negras preparando o bote. E, finalmente, no final do terceiro dia, tudo estará pronto para ser consumido pelo desejo. É o momento em que ele chega triunfante ao coração desta Filha do Barro. E ela será dele por quantos anos seu corpo resistir e puder atrair mais e mais infelizes cobiçosos e miseráveis.

É um plano perfeito que vem sendo executado há milênios, sem falhas. Existe, porém, uma pequena dúvida: que energia é essa que ele sentiu momentos atrás? Em seu caminho rumo ao coração da criança, viu-se atrasado por uma espécie de força que não pôde identificar de pronto. Seria um destes velhos que carregam a Estrela de Cinco Raios? Aquele que os Filhos do Barro chamam de Rabino? Ou um destes que foi tocado pelo Olho Iluminado e pode enxergar as Escadas da Consciência?

Ele não gosta de correr riscos. É por isso que sempre preferiu crianças. Para seu desagrado, teria que causar uma manifestação para descobrir quem é esse intruso, esse penetra que apareceu para roubar sua refeição. 

Por um brevíssimo momento, ele sentiu pena pela dor que causaria. Em seguida, nadou rapidamente em direção ao útero da menina.

Na casa do Sr. Kedem, um grito lancinante foi ouvido. Vinha de dentro do quarto da pequena Danya.


Não perca a terceira parte de  Veneno - João Vela contra os Excomungados!



Sobre o Autor:
Marcos H. de Oliveira Marcos H. de Oliveira é redator freelance de publicidade e propaganda e consumidor voraz de livros, música, cinema e arte. http://twitter.com/agentescreve

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