Los Hermanos - O Velho e o Moço

segunda-feira, outubro 11, 2010 Marcos H. de Oliveira 0 Comments

Poesia, lirismo e encanto. Los Hermanos é uma banda avessa aos modismos estéticos que surpreendeu a crítica e o público a cada álbum lançado com uma mistura do rock com elementos do samba e MPB.

Em seu terceiro álbum Ventura (2003), você se depara com faixas sofisticadas, inteligentes e bem elaboradas. Dentre elas encontra-se “O velho e o moço”. Rodrigo Amarante, compositor da música e ex-integrante da banda que entrou em recesso no ano de 2007, compõe músicas como quem faz poesia.

Já no título você percebe a temática da música que sugere uma reflexão sobre algo com o qual lidamos a todo instante; às vezes o temos como inimigo e outras como amigo: o tempo.

Há quem diga que a música tenha influência do poema
Contraste do Padre Antônio Thomaz*, pois em ambas você encontra a influência do tempo na vida do homem.

Além disso
, do meu ponto de vista, essa música também se fundamenta em crenças religiosas como o Espiritismo. O Espiritismo é um conjunto de doutrinas que consideram o homem um espírito imortal, que reencarna com o objetivo de evoluir sempre.

Percebe-se a ligação da música com a doutrina nos versos: “se o que eu sou é também o que eu escolhi ser” e “Eu sei que ainda vou voltar… Mas, eu quem será?”.

Ao observar a estrutura das estrofes e da melodia da música, você encontra a alternância que expressam a consciência do velho e do moço. É a representação do ponto de vista de cada idade, de cada tempo. Ora se depara com o conformismo e cansaço do velho, ora com o desprendimento e vaidade do jovem.

As músicas dos Los Hermanos são ricas de sentimentos e poesia. Interpretar suas letras é uma experiência repleta de descobertas, pois você não analisa apenas o contexto, mas sim o que ela o faz sentir e pensar. 


O Velho E O Moço
Los Hermanos

Composição: Rodrigo Amarante


Deixo tudo assim

Não me importo em ver a idade em mim,
Ouço o que convém
Eu gosto é do gasto.

Sei do incômodo e ela tem razão
Quando vem dizer, que eu preciso sim
De todo o cuidado

E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz,
Quem então agora eu seria?

Ahh, tanto faz
Que o que não foi não é
Eu sei que ainda vou voltar...
Mas eu quem será?

Deixo tudo assim,
Não me acanho em ver
Vaidade em mim
Eu digo o que condiz.
Eu gosto é do estrago.

Sei do escândalo
E eles têm razão
Quando vêm dizer
Que eu não sei medir
Nem tempo e nem medo

E se eu for
O primeiro a prever
E poder desistir
Do que for dar errado?

Ahhh
Ora, se não sou eu
Quem mais vai decidir
O que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!

Ah, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
Aceito a condição

Vou levando assim
Que o acaso é amigo
Do meu coração
Quando fala comigo,
Quando eu sei ouvir...

* Padre Antônio Thomaz – Contraste

Quando partimos no verdor dos anos, 
Da vida pela estrada florescente, 
As esperanças vão conosco à frente, 
E vão ficando atrás os desenganos. 

Rindo e cantando, célebres, ufanos, 
Vamos marchando descuidosamente; 
Eis que chega a velhice, de repente, 
Desfazendo ilusões, matando enganos. 

Então, nós enxergamos claramente 
Como a existência é rápida e falaz, 
E vemos que sucede, exatamente, 

O contrário dos tempos de rapaz: 
 
Os desenganos vão conosco à frente, 
E as esperanças vão ficando atrás.


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