Arabian Nights - As 1001 noites de Antoine Galland.

quarta-feira, outubro 27, 2010 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


“Por Deus que irei adiar sua morte por esta noite e por tantas noites quantas forem necessárias, mesmo que se passem dois meses para ouvir o restante dessa narrativa...depois então, eu a matarei, conforme o hábito com as outras.” - trecho do livro

Um dos livros mais populares do Oriente só passou a ser amplamente conhecido pelo mundo ocidental a partir de uma tradução para o francês, em 1704, (séc XVIII) do orientalista Antoine Galland. Sua versão de As Mil e uma noites talvez seja a mais popular e proporcionou o início da influência da obra árabe na cultura ocidental.

O motivo do sucesso de As Mil e uma noites na França se deu por um momento cultural favorável. O classicismo e a concepção literária greco-latina estavam em crise. A estática clássica entrava em colapso e era o momento dos romances de aventura, de heroísmos mirabolantes. Vale salientar que a tradução de Galend sofreu inúmeras críticas de historiadores, uma vez que o orientalista adaptou o livro ao gosto francês da época, aproximando as expressões e sentimentos debruçados na postura eurocêntrica da Europa de Luís XIV.
  
Xerazade é a grande narradora dos contos e isso é invariável a todas as versões que existem deste livro de várias origens históricas e culturais, incluindo o folclore persa, indiano e árabe. Desde o século IX, a história de Xariar, rei da Pérsia da dinastia dos Sassânidas e Xerazade, filha do vizir (espécie de primeiro ministro) existe e unifica a obra, embora existam outros contos no livro.

O rei Xariar manda matar sua esposa pois está decepcionado após a descoberta da sua traição  com um dos seus escravos. Ele se convence, desta forma, que nenhuma mulher jamais será digna de confiança. A partir daí, decide  estar com uma mulher diferente a cada noite, na condição de que no dia seguinte ela fosse exterminada. Sendo assim, ele não seria traído novamente. 

Exigiu, portanto, que trouxessem todas as virgens do reino e isso ocorreu durante vários anos. O vizir era uma espécie de primeiro ministro, responsável por levar as moças até o rei.  Xerazade, filha do vizir, pede então ao pai que a leve até o rei. O pai é contra e só depois de muita insistência da moça, convence-o de que tinha um estratagema para fugir da morte,. Ele, assim, aceita o seu desejo.

Inteligente e corajosa, esta hábil mulher luta pela sobrevivência diante da ira e fúria do rei traído através de seus estratagemas femininos sutis e sedutores. Pessoalmente, Xereazade é a personificação do ardil feminino. Esta bela odisséia oriental, que é muito mais um drama do que um romance é um relato da mente feminina e de tudo o que é capaz de transgredir sutilmente, através de sua inteligência instintiva e dinâmica.

Assim, o rei e a sua mente triste e furiosa são capturados pelas paixões e maravilhas que saíam da boca de Xerazade. A cada amanhecer, a moça interrompia os contos para assim continuá-los na noite seguinte, mantendo a possibilidade de não ser morta.

Suspense, jogos de poder, injustiças, fortuna, amor e gênios malignos são temas utilizados pela narradora para absorver o inconsciente do rei e instigar cada vez mais a sua imaginação. Ao despertar a curiosidade do rei com seus contos e anedotas geniais, o rei assim desfrutava de toda sua criatividade e todo seu potencial de persuasão e sensualidade, envolvido que estava pela perspicácia e sagacidade da mulher. 

Mais curioso ainda é perceber que Xerazade relativiza a esfera do conhecimento e do saber e sua personagem é caracterizada todo o tempo por seus atributos intelectuais e não pelos físicos, sendo este aspecto algo que torna a obra mais questionadora e um bom motivo para análises históricas e culturais sobre os povos do oriente.

Sempre encantadora, o livro a expõe como conhecedora das coisas, munida da arte da palavra, além de inteirada sobre poesia, medicina e História. Xerazade tinha o dom da palavra e sabia de comunicar bem, fosse com os reis ou com o povo. Ela e seus personagens, dentre eles, o xeique, o vizir, o pescador, o médico e uma infinidade de criaturas revelam aos leitores muitos valores do mundo muçulmano. Alí, há uma série de narrativas, uma dentro da outra.

A oralidade é um traço marcante e por isso inúmeros artistas de rua e grupos circenses nômades se apropriaram das narrativas, por terem encontrado um bom material de trabalho. Sem dúvida, o valor das histórias é inestimável, não só por serem advindas de povos diferentes do nosso, mas revelam profundo conhecimento humano, transpessoal e religioso. 

Tais características revelam a profundidade dos textos e da cultura oriental, cercada de mistérios e sabedorias que valem a pena ter sempre por perto, não importa para quem possamos ler. Não importa a idade, o credo, a nação. Afinal de contas, não há limites nem fronteiras quando se tem uma boa história para contar e para ouvir. E quem não gosta de uma boa história?

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