João Vela contra os Excomungados - Veneno - Cap. 01 de 05 por Marcos H.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011 Marcos H. de Oliveira 4 Comments

Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma verdade. - Erasmo – Elogio da Loucura, 1509

Se você estivesse deitado no chão da cozinha da família Asher neste momento, veria uma mistura de saliva, purê de batatas e cebolas próxima a porta de entrada. Eram os restos da última refeição de Danya, a filha mais nova do Sr. Kedem que cuspiu prontamente a comida oferecida pelo velho. Foi este o exato lugar aonde o homem que entrou, pisou primeiro.

Duas horas antes, o homem estava na estrada sem rumo certo. Sua bússola era o tempo. Levava consigo apenas uma pequena bolsa de couro e um chicote. Se não fosse a chuva do dia anterior que limpou um pouco o barro e a poeira de suas roupas, passaria facilmente por um mendigo, um vagabundo. O chapéu que usava parecia ter sobrevivido, por pouco, a uma guerra. Foi essa figura que o Sr. Kedem viu bater à sua porta.

Antes que pudesse abrir a boca, um sujeito de nariz enorme e baixa estatura saiu de trás do homem. Era conhecido naquela cidade por Mayer mas esse não era o seu nome. Fazia pequenos serviços aqui e acolá para quem pagasse ou até mesmo por um prato de comida. Também era conhecido como o “fofoqueiro da cidade” e a natureza tinha lhe dado o dom de meter seu enorme nariz nos assuntos alheios.

- Ele veio ajudar, falou Mayer depressa. Ele sabe.

O Sr. Kedem olhou de soslaio para o homem e depois se dirigiu para Mayer:

- Do que está falando seu contador de mentiras? Saia da minha casa agora!

O homem levantou o braço devagar em direção ao velho e tocou seu peito levemente. Quando falou, sua voz parecia a de alguém com areia na garganta:

- Não temos muito tempo. Onde está a menina?

Desconcertado, o Sr. Kedem olhou para o chão e disse:

- No quarto. Ali no quarto.

Há uma hora atrás, o homem havia recebido o sinal na estrada. Para qualquer outro seria apenas o vento revirando a poeira do asfalto, brincando com as folhas mortas e pequeninas pedras. Mas para ele, era um padrão conhecido. E quando um cachorro ladrou fora de seu momento naquele entardecer, ele já sabia para onde ir.

A casa possuía apenas um quarto na verdade. O homem percebeu ali perto da cozinha um sofá velho com alguns cobertores. Mesmo sem precisar se explicar, o Sr. Kedem falou:

- Eu durmo ali desde que minha esposa morreu. O quarto é somente da pequena...

O homem interrompeu, bruscamente:

- Sem nomes. Fique em silêncio.

A porta do quarto não estava trancada. Praticamente sem mobília nenhuma, o quarto era ocupado quase que totalmente pela cama de casal. No centro dela, a menina estava deitada e coberta por um lençol que de tão branco parecia ter sido lavado para alguma ocasião especial. Dormia tranquilamente. Acima da cama, uma Estrela de Davi do tamanho de um punho fechado vigiava o ambiente.

“Droga, Judeus”, falou o homem entre os dentes. Ele deu uma rápida olhada em volta e saiu, fechando a porta atrás de si. Depois, virou-se para o Sr. Kedem e falou:

- Há quanto tempo ela está assim?

Mayer (que havia resistido o quanto pôde ao silêncio) respondeu primeiro:

- Dois dias. Ela ficou doente faz dois dias, senhor.

Naquele momento, o homem decidiu que não gostava de Mayer. Olhou para o velho e disse com sua voz de areia:

- Temos apenas cinco horas até a meia-noite. Depois disso, não poderei ajudá-la. Se eu for fazer isso, preciso que siga minhas ordens sem questionamento algum. Caso não concorde, eu dou meia-volta e sua filha morre. Você me entendeu?

O pobre Sr. Kedem esbugalhou os olhos. Parecia que estava em um sonho. Não, em um pesadelo. Desejou ter sua esposa ao seu lado, seus filhos que foram embora da cidade, seu antigo emprego de carteiro. Desejou ter alguma coisa na qual se agarrar. Mas não tinha mais nada. Apenas a sua filha que agora dependia da resposta de um velho para sobreviver de um mal do qual ele não fazia a menor ideia. Era um cenário impossível de acontecer, mas que estava diante dele neste momento.

- Eu prometo, senhor. Por favor. Por favor, foi o que conseguiu dizer.

O homem olhou em volta e colocou sua bolsa em cima da mesa de jantar. Mayer salivava de curiosidade.

O que pretende? O que vai fazer?, perguntou.

- Um exorcismo, o homem respondeu secamente.


Não perca a segunda parte de  Veneno - João Vela contra os Excomungados!


Sobre o Autor:
Marcos H. de Oliveira Marcos H. de Oliveira é redator freelance de publicidade e propaganda e consumidor voraz de livros, música, cinema e arte. http://twitter.com/agentescreve

4 comentários:

muito bom!

"parecia ter areia na garganta". massa!

Thany disse...

Vamos ver o que esse "Jão" tem pra nos contar ;)

Fran :] disse...

Devo confessar que minha curiosidade foi despertada...