INFERNO - A DIVINA COMÉDIA DE DANTE ALIGHIERI.

quarta-feira, setembro 22, 2010 Marcos H. de Oliveira 0 Comments


Dante Alighieri nasceu em Florença, em 30 de maio de 1265. Multifacetado, desenvolveu inclinações para o desenho, o manejo de armas e a música. Viveu muitos anos de favores, esmola e mecenato de nobres italianos que admiravam sua arte. Após exercer forte influência política nas funções de conselheiro e prior, foi exilado ao fim de sua vida, durante quase dez anos de sua existência. Nesse período, escreveu a Comédia, que mais tarde, no século XIV, Boccaccio, autor de Decamerão, acrescentaria “Divina” ao título da obra do autor florentino.

Críticos e estudiosos concordam que a imortalidade da obra de Dante se deve ao fato de que ele pensava por imagens. Rica visualmente, a Divina Comédia influenciou pintores e artistas plásticos como Botticelli, Michelângelo, entre outros.

Composta em cantos, a Divina Comédia era publicada e difundida à medida que era escrita. O poema narrativo dividido em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso é talvez uma das mais importantes odisséias clássicas da literatura mundial. Nela, Dante utilizou-se de personagens históricos e homens públicos de Florença para explorar os conflitos existenciais do homem europeu na Baixa Idade Média.

Entrar na atmosfera da Divina Comédia é conhecer o retrato do povo à beira do período que compreende o Renascimento, porém ainda aprisionado pelas correntes da Inquisição medieval, refém da busca pela excelência moral e espiritual. Os resquícios da antiguidade clássica politeísta e a influência cultural sobre o indivíduo medieval convertido ao cristianismo é uma das características marcantes da obra.

"Nasci de Júlio em era retardada,
Vivi em Roma sob o bom Augusto,
Quando em deuses havia a crença errada."

O Inferno, o Purgatório e o Paraíso são a própria representação da jornada humana e seu caminho espiritual e por isso é uma composição baseada na simbologia do número 3, significando basicamente as lutas, as transições e a bonança. Outros estudiosos associam a densidade poética da obra a representação da Santíssima Trindade. O triângulo também é representado pelos personagens principais da odisséia: Dante, Virgílio e Beatriz, sua musa platônica.

Não menos impressionante, a obra Dantesca envolve temas e personagens bíblicos, que por ironia ou por uma simples confirmação da condição humana podem ser encontrados durante as passagens de Dante pelos reinos extraterrenos.

Fantasia, representação poética, potencial alegórico e polissêmico, A Divina Comédia pode ser considerada uma bíblia da antiguidade clássica, com suas inúmeras capacidades e possibilidades de significados. Um livro atemporal, um retrato de dramas históricos e morais profundos, por isso atual em qualquer época..

Baseado em um drama humano, carregado de história, linguagem, símbolos e arte, Dante é o próprio personagem e sua jornada é uma peregrinação. Ele está em busca dos ideais cívicos da união, da justiça e do amor. Repleta de beleza poética, porém não menos agressiva e polêmica, a obra consegue ser didática. Isso mesmo: didática. 

Um dos recursos para isso é a tenacidade e a veracidade com a qual aborda assuntos referentes às instituições políticas, sociais e religiosas, além dos valores alienantes e materiais da época. Sendo assim, consegue capturar todo o sentimento de desespero e expectativa de realização e purificação espiritual daquela sociedade.

“Fugindo da presença dos demônios, os dois poetas conseguem chegar à sexta vala do oitavo círculo, onde se acham os hipócritas. Estes desfilam em prantos, revestidos de grossas capas de chumbo.”

A bordo do barco mitológico de Caronte, o barqueiro e guia, Dante percorre a trajetória humana num além mundo que não nada mais é do que o próprio mundo da sua época. Ele e o poeta Virgílio, seu guia do além mundo, vão até o Paraíso, à espera da amada, Beatriz, musa de Dante.

Um clássico da literatura mundial que merece ser lido e apreciado por leitores de todas as culturas. Diria que trata-se de uma das ficções clássicas mais significativas, descrita com análise visual digna da robustez de um dos maiores gênios clássicos.

Para os novos leitores, pode ser uma experiência única, carregada de conteúdos históricos que merecem ser apreciados. Aconselho que se procure as versões em prosa mais compactas caso se queira entender mais facilmente a estrutura da obra. Sem dúvida, o livro é um manancial de pesquisa e referência de estudos estéticos e literários.

Concordo com Einstein quando ele disse: “A imaginação é mais importante que o conhecimento, pois este é limitado”. Neste livro, a imaginação é substância, substrato e conteúdo. Aproveitem, essa comédia humana é divina!

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